PMDB demite ministro da Educação de Dilma

PMDB demite ministro da Educação de Dilma

Depois de bate-boca e troca de ofensas na Câmara, PMDB ameaça deixar a coalizão e Eduardo Cunha anuncia a exoneração do ministro da Educação. PT quer a transferência do desgastado Mercadante para a pasta

PAULO DE TARSO LYRA MARCELLA FERNANDES NAIRA TRINDADE JULIA CHAIB
postado em 19/03/2015 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press)

O inferno político da presidente Dilma Rousseff tem camadas sobrepostas que se abrem a cada dia. Ontem, com apenas 77 dias no cargo, ela foi obrigada a demitir o ministro da Educação, Cid Gomes, que reafirmou, no plenário da Câmara, as acusações feitas há duas semanas de que existem integrantes da base aliada que votam contra o governo para achacar o Planalto. O PMDB pediu a cabeça de Cid em uma bandeja. Fragilizado, o Planalto teve que entregá-la. Para piorar, quem comunicou a decisão ao país foi o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), apontado por Cid como um dos achacadores. O governo temia que Cunha se vingasse na votação sobre as novas regras de correção do salário mínimo, que acabou adiada para a semana que vem.
O atual secretário executivo do Ministério da Educação, Luiz Cláudio Costa, assume interinamente a pasta. Abre-se, então, a bolsa de apostas pela sucessão. O PT defende que Dilma desloque o ainda protegido Aloizio Mercadante, mas desgastado no papel de articulador político, para o MEC e nomeie Jaques Wagner para a Casa Civil. A outra saída seria entregar para o PMDB um dos maiores orçamentos da Esplanada. Nesse caso, dois nomes aparecem como possibilidades. Gastão Vieira, ex-ministro do Turismo e ligado ao ex-senador José Sarney, e o deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG), presidente da comissão de Educação e ex-ministro da Saúde durante o governo Lula.


O Planalto temia o desfecho trágico havia dias. Já pedira a Cid, titular da pasta com o mote do segundo mandato presidencial ; ;Brasil, pátria educadora; ;, que recuasse das declarações dadas durante palestra para estudantes na Universidade Federal do Pará de que existiriam de 300 a 400 achacadores no Congresso. Ele não recuou. ;Alguns querem criar dificuldades para conseguir mais um ministério. Eu estarei mentindo, se assim o disser? Por exemplo, tinha um que só tinha cinco. Criou dificuldades, criou empecilhos e conquistou o sexto. Agora, quer o sétimo. Vai querer o oitavo. Vai querer a Presidência da República, e isso é disputa de poder até certo ponto;, disse ele, referindo-se ao PMDB.

;Quem é da situação deve votar com a situação. Desculpe-me a oposição, que exerce o seu papel. Mas eu não posso chegar aqui e dizer que eu não disse o que eu disse;. Ele levou uma claque composta por deputados estaduais, vereadores, líderes comunitários e comissionados do MEC, que foi expulsa do plenário por Cunha. Cid ainda apontou o dedo para o presidente da Casa. ;Disseram que eu era mal-educado. É melhor ser chamado de mal-educado do que de achacador, como o senhor.;



O plenário pegou fogo de vez. O líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), defendeu a demissão de Cid ou o PMDB sairia da base. Quando o deputado Sérgio Zveiter (PSD-RJ) afirmou que o ministro deveria usar nariz de palhaço ou colocar uma melancia no pescoço, Cid tentou retrucar, mas, impedido, deu as costas e foi embora. Eduardo Cunha anunciou que a Câmara processaria o ainda ministro. ;Toda vez que alguém atacar essa Casa, a Casa reagirá;.

Cid dirigiu-se ao Planalto. Após sair da reunião com a presidente, afirmou que pediu demissão e não deu chances para uma contraproposta da presidente. ;Não quis criar nenhum constrangimento, pedi demissão em caráter irrevogável.; Declaração diversa da proferida ainda no Salão Verde da Câmara. ;Eu estou ministro até o dia que a presidente Dilma desejar. Ela resolverá o que vai fazer;, disse aos jornalistas.


Personagem da notícia

Folclórico e polêmico

Cid Gomes, que deixou ontem o cargo de ministro da Educação com pouco menos de três meses no cargo, é especialista em colecionar polêmicas e imagens folclóricas. Em 2008, quando estava no primeiro mandato como governador do Ceará, levou a própria sogra para uma viagem à Europa durante o carnaval. No voo, fretado e que custou R$ 388 mil, viajaram Cid, a mulher, a sogra, o secretário de turismo estadual à época e um assessor, ambos acompanhados das respectivas esposas.

Em 2013, já no segundo mandato, Cid Gomes foi novamente questionado pelo Ministério Público Estadual pelo pagamento de R$ 680 mil de cachê à cantora baiana Ivete Sangalo por um show de inauguração em um hospital público em Sobral. No fim do mesmo ano, Cid, em uma jogada de marketing político, mergulhou em um tanque de uma adutora no município de Itapipoca. Fez isso para fechar cinco parafusos que controlavam a saída de ar e impediam o abastecimento de água na cidade.


Punição ao caixa dois
A presidente Dilma Rousseff anunciou ontem as medidas do pacote anticorrupção. Entre elas, estão a criminalização do caixa dois de campanha, o confisco de bens de servidores por enriquecimento ilícito e a extensão dos critérios da Lei da Ficha Limpa para preenchimento de cargos no serviço público federal. O governo também publicará hoje o decreto que regulamenta a lei que pune empresas por atos ilícitos contra a administração pública e pedirá urgência no projeto que trata da alienação antecipada de bens. Ainda será criado um grupo para avaliar sugestões para acelerar processos. Na solenidade para apresentá-las, a presidente Dilma Rousseff disse que o combate à corrupção é ;coerente; com sua ;vida pessoal; e que o Brasil deve deixar de ser um país ;patrimonialista;e mudar a cultura.

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