A virada de Netanyahu

A virada de Netanyahu

Partido do premiê surpreende, consegue o maior número de assentos no parlamento e começa a formar aliança com legendas de direita para permanecer no poder. Radicalização do discurso antiárabe preocupa os EUA

Gabriela Walker
postado em 19/03/2015 00:00
 (foto: Thomas Coex/AFP)
(foto: Thomas Coex/AFP)



Israel se encaminhava ontem para ter mais um governo de direita com apoio de legendas ultranacionalistas e religiosas, depois da surpreendente vitória eleitoral do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Bibi Netanyahu. Após uma difícil campanha, com as pesquisas de opinião acusando queda na popularidade do premiê e o crescimento da coalizão de centro-esquerda União Sionista, Bibi sai das urnas fortalecido ; embora, desde logo, pressionado pela Casa Branca, que manifestou preocupação pela ;retórica divisiva e antiárabe; do líder direitista (leia mais na página 16).

;A realidade diária de nosso país não nos permite o luxo de demorar;, disse ele em comunicado, no qual anunciou que trabalhará rapidamente para recompor o gabinete. Nos próximos dias, o presidente Reuven Rivlin deve encarregar Netanyahu de encabeçar o novo governo.

Com a apuração concluída, o Likud comemorou a conquista de 30 cadeiras na Knesset (parlamento), seis a mais que a bancada da União Sionista. Como terceira força, com 14 deputados, firmou-se a Lista Conjunta, formada pela união inédita das quatro principais legendas árabes-israelenses.

O premiê se apressou em costurar alianças, consultando líderes de partidos com ideologias próximas às do Likud desde a madrugada. Bibi deve contar com o apoio do Habayit Hayehudi (Casa Judaica), do conservador Naftali Bennett; do ultranacionalista Yisrael Beiteinu, do chanceler Avigdor Lieberman; dos ultraortodoxos Shas e União Judaica Torá; e do Yachad, de extrema-direita. Moshe Kahlon, líder do centrista Kulanu, também foi consultado, segundo o próprio premiê. Essa coalizão garantiria ao Likud uma confortável maioria de 67 cadeiras.

A oposição, que chegou a externar a confiança de conquistar o governo diante dos resultados iniciais, reconheceu ontem a reviravolta. ;A nação expressou sua voz e temos de respeitar isso;, disse Isaac Herzog, líder da União Sionista. Ele descartou a possibilidade de um governo de união nacional, sugerido de início pelo presidente Reuven Rivlin, e disse que voltar à oposição será ;o caminho natural;.

Estratégia
Nos últimos dias da campanha, tornou-se evidente o temor do Likud de ser derrotado, com o crescimento da centro-esquerda nas pesquisas. Bibi mudou a estratégia e engajou-se em uma maratona de comícios, entrevistas e programas de tevê. Adotou um discurso radical e afirmou que os rivais colocariam em perigo a segurança de Israel. Na véspera da votação, chegou a prometer que ;não haverá Estado palestino; enquanto ele chefiar o governo.

A guinada de Bibi na direção da extrema-direita causou preocupação e desconforto em líderes mundiais, que defendem uma solução pacífica para o conflito com os palestinos. Em meio ao temor de que um governo radical afete a situação regional, analistas destacam que o premiê pode recuar, caso isso beneficie seus interesses políticos.

;Essas declarações pareceram uma manobra política, que podemos compreender pela situação complicada que as pesquisas apontavam. Mas Bibi é um político experiente e inteligente, isso não será impedimento para que ele mude de ideia e volte a discutir com os palestinos;, analisa Rita Do Val, coordenadora de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina. O presidente palestino, Mahmud Abbas, disse que trabalhará ;com qualquer governo israelense;, desde que ele aceite a criação do Estado.


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