A delicadeza de uma pioneira

A delicadeza de uma pioneira

A jornalista Sophia Wainer desbravou Brasília e rompeu tabus sociais. Despede-se com lições que mesclam força e doçura

ADRIANA BERNARDES ROBERTA PINHEIRO
postado em 19/03/2015 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 26/11/93)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press - 26/11/93)

A paixão por Brasília foi à primeira vista. Nem os ;lacerdinhas; ; como foram apelidados os redemoinhos de terra vermelha dos primeiros anos do Distrito Federal ;, nem a crítica ácida dos que apostavam contra a capital de Juscelino Kubitschek intimidaram Sophia Wainer. Pôs os pés na cidade pela primeira vez no dia da inauguração. A missão? Descrever para os leitores do Última Hora, jornal do irmão Samuel Wainer, para quem trabalhava, o momento que entraria para a história do país. Naquele mesmo dia, avisou que não voltaria para São Paulo. Dois fatores pesaram na decisão: a oportunidade única de ver uma cidade sair do papel e a possibilidade de criar os filhos de forma ;mais saudável;, como definiu certa vez em entrevista ao Correio Braziliense.


A mulher de intensos e curiosos olhos azuis enxergava além do horizonte. Escreveu a própria história rompendo tabus na vida profissional e pessoal. Como jornalista, conquistou espaço nas redações num tempo em que elas eram redutos predominantemente masculinos. Como mulher, ousou, na década de 1950, divorciar-se do primeiro marido, com quem teve o primogênito, Sylvain Levy. Do segundo relacionamento ; que durou até meados de 1970 ; nasceram Nina e Dora Wainer.
Sophia Wainer morreu ontem, em Brasília, de insuficiência respiratória. Estava internada fazia quatro dias na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Brasília. Amigos e colegas de trabalho renderam homenagens. Despedem-se dela hoje, entre 10h e 12h, na capela 4 do cemitério Campo da Esperança. O corpo dela será cremado. A família ainda não decidiu sobre onde serão jogadas as cinzas.


Na capital, tornou-se referência. A facilidade com idiomas abriu portas e ela se especializou na cobertura do Itamaraty. Entre tantas homenagens, em 1998, Sophia foi condecorada com uma das mais importantes outorgas do governo argentino: a Ordem de Maio, no grau de cavaleiro. Em seu discurso, o então embaixador Jorge Hugo Herrera Vegas destacou a atuação de Sophia. ;;E Brasília não frustrou as expectativas da inquieta jornalista. Por aqui passaram grandes mitos do cenário internacional: Ben Gurión; David Rockefeller; a rainha Elizabeth, da Inglaterra; Charles de Gaulle; Golda Meir; Shimon Peres; Yves Montand; Catherine Deneuve... Todos eles conheceram o charme de Sophia, e o público brasiliense os conheceu mais e melhor através de sua pena.;


O discurso do diplomata não deixa dúvidas da importância e do respeito de Sophia também no meio político. ;Certamente, a lista de personalidades brasileiras com as quais Sophia se relacionou e se relaciona é interminável. De Tancredo Neves, Maria Thereza Goulart, Sarah Kubitschek, a Pelé e Gerson, todos conheceram a profissional incansável e muitos tiveram a sorte de conhecer a amiga de lealdade incomparável.;


A pedido do Correio, o filho, Sylvain Levy, fala um pouco de Sophia. Começa a frase, na terceira pessoa, como quem fala de um mito. ;Tenho dificuldade de dizer foi, então digo é. Sophia é uma mulher extraordinária. Sempre esteve à frente do seu tempo. Sempre fez coisas que ninguém tinha feito. Sempre serviu como um grande modelo de jornalista, de como fazer jornal, e um grande modelo de convívio entre as pessoas;, diz. Levy ressalta, ainda, outro traço marcante da mãe: o orgulho ;de jamais ter usado a profissão ou o espaço profissional para qualquer tipo de ganho que não fosse o jornalismo;. ;Eu tinha uma admiração grande por minha mãe;, diz Levy.

Coerência
A admiração e o respeito se estendem aos amigos que Sophia conquistou ao longo da vida. As festas de aniversário nunca tinham menos de 100 pessoas. Era comemorado em 25 de dezembro. ;O Carlos Fernando Mathias (desembargador do Superior Tribunal de Justiça), amigo dela, dizia que era uma concorrência desleal;, lembra Levy.


E quando Sophia comemorou 40 anos de profissão, em dezembro de 1993, foi Carlos Mathias quem escreveu um texto em homenagem a ela. Num relato bem-humorado, o amigo dizia que Sophia era ;pior que mãe de miss, quando fala do sucesso da Dorinha nos palcos;. Em outro trecho, brinca com a coincidência de Sophia ser judia e ter nascido em 25 de dezembro. ;Sophia, em síntese e sobretudo, é coerente e prestativa. Aliás, sua única incoerência conhecida ; mas nisto ela parece não ter tido grande participação ; foi, como judia, ter nascido no dia de Natal. Mas, talvez, por isso mesmo (e como compensação) passou a ser a única judia com vocação para irmã de caridade.;


Amigo de Sophia, o advogado Luiz Carlos Bettiol, 80 anos, diz que ela era um raro talento. ;Tinha uma atuação intensa na redação e se destacava entre as jornalistas, que não eram muitas;, relembra. Os dois trabalharam juntos nos anos de 1960 no Última Hora. Bettiol pôde testemunhar que Sophia não perdeu, ao longo da vida, a capacidade de trabalho e a alegria de viver. ;Ela deixou muitos amigos e admiradores. Agora, ficam a saudade e a lembrança de um bom exemplo de cidadã, jornalista e amiga;, declara.


Sophia ingressou no Correio Braziliense nos idos de 1970. Começou escrevendo para o ;Agora, a Mulher;. Na década de 1990, assinava a coluna de Marcone Formiga como colaboradora. E, por último, contribuía para a coluna 360;, de Jane Godoy.

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