E a cidade vai sumindo...

E a cidade vai sumindo...

Em Planaltina de Goiás e no Novo Gama, centenas de habitantes são prejudicadas por buracos que não param de crescer. Muitos recebem auxílio-moradia das respectivas prefeituras para abandonar as áreas ameaçadas

» BERNARDO BITTAR
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Centenas de moradores de Planaltina de Goiás e do Novo Gama estão mudando de endereço antes que as residências deles sejam engolidas por crateras. Na primeira cidade, um buraco de 2km de extensão e 40m de profundidade destruiu uma estrada e várias casas. No segundo município, há duas erosões: uma no Pedregal, com 500m de largura e 25m de profundidade; e outra, de medida semelhante, no Lago Azul. As prefeituras das duas localidades informaram que não têm dinheiro para construir aterros ou galerias de águas pluviais.

O carpinteiro José Pereira de Souza, 66 anos, mora na Quadra 2 do Setor Oeste de Planaltina de Goiás há duas décadas. Ele está entre as pelo menos 150 pessoas diretamente prejudicadas pela erosão na cidade. ;Aqui, era tudo terra. O bairro era maior, e as coisas valiam dinheiro. Hoje, ninguém quer comprar nada por esses lados. As casas foram ;comidas; pelo buraco;, lamentou. A residência dele fica a 100m da cratera. ;Algumas pessoas saíram daqui e, agora, estão recebendo uma mesada (da prefeitura) para pagar o aluguel;, contou. Essas famílias recebem entre R$ 350 e R$ 400 por mês como auxílio-moradia, mas José Pereira ainda não teve nenhuma proposta.

Para o engenheiro da prefeitura de Planaltina de Goiás, Fabrício Rodrigues, a cratera é resultado de 30 anos de deságue incorreto (leia Memória). ;O planejamento era descarregar a água da cidade no rio que tem ali perto. A obra foi feita de forma errada, e a água acabou indo pra lá;, detalhou. Assim, o volume da água e a falta de pedras para apoiar o solo ocasionaram os desmoronamentos.

A situação foi reconhecida como emergencial pelo Ministério de Integração e pela Defesa Civil, em 2012. Esses órgãos prometeram realizar, entre 9 de maio e 4 de novembro daquele ano, três obras no valor de R$ 4 milhões a fim de amenizar a situação. Apesar das obras nas quadras 1 e 2, não houve melhora significativa. Além disso, as quadras 5, 6, 11 e 12, também prejudicadas, nunca receberam verba. ;Mas o dinheiro (do governo federal) não foi liberado. O que nós conseguimos foi R$ 1 milhão. Gastamos R$ 400 mil a mais para fazer uma galeria de águas pluviais e ainda nem recebemos essa quantia;, reclamou o prefeito Eles Reis de Freitas. Para resolver todos os problemas, segundo a prefeitura, seriam necessários R$ 50 milhões.

Prestação de contas
Estima-se que 10 residências e uma estrada, conhecida como Rua Doutor Wilson, única ligação entre o Setor Oeste e o Hospital Nossa Senhora da Abadia, tenham desmoronado na erosão. O prefeito de Planaltina de Goiás explicou que os moradores não realocados até o momento resistem em deixar o setor onde vivem. ;As pessoas que não aceitaram ajuda do município querem continuar morando no Oeste. Então, não podem reclamar da falta de segurança;, alegou.

O Ministério da Integração Nacional e a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil responderam, por meio de nota, que aguardam a prestação de contas de Planaltina de Goiás para liberar o restante do dinheiro. Acrescentaram que Planaltina e Novo Gama não estão com reconhecimento federal por situação de emergência ou calamidade pública, pois o prazo de validade, de 180 dias, expirou e não houve novo pedido.

Memória
Desocupação

A cidade de Planaltina de Goiás, no Entorno, decretou situação de emergência por causa de uma cratera de mais de 40m de profundidade, em 2013. A intensidade das chuvas fez com que o acesso ao hospital da cidade fosse impedido. Na época, algumas casas ficaram a 1,5m da erosão e precisaram ser desocupadas com urgência. No Novo Gama, duas erosões, uma no bairro do Pedregal e outra no Lago Azul, fizeram com que comércios e residências fossem engolidos, há dois anos. Na ocasião, o prefeito qe os vereadores disseram que havia dinheiro para resolver o problema.

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