Desrespeito e conflito entre pedestre e motorista

Desrespeito e conflito entre pedestre e motorista

No terceiro dia da série Maioridade da faixa de pedestres, o Correio mostra que, no ano passado, os agentes de trânsito aplicaram 10.169 multas, número 359% maior que o registrado em 2013 e recorde desde 1997. Os flagrantes de descaso ainda são comuns

» ADRIANA BERNARDES
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)
(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)



Ao chegar a Brasília, há uma década, a carioca Alice Ribeiro Mello, 27 anos, via com desconfiança a história de que o motorista da capital respeitava a prioridade do pedestre na faixa. Por isso mesmo, ficava de frente para as listras brancas e só botava o pé no asfalto depois que todos os carros paravam. Os anos se passaram e Alice se acostumou com a civilidade do motorista brasiliense. A pé ou atrás do volante, seguiu o exemplo e se orgulhou também.

Há cinco meses, ela descobriu, do pior jeito, que não bastava somente estar atenta. Quando seguia para a casa de uma amiga, na Asa Norte, parou na faixa para que uma mulher com uma criança de colo atravessasse a via. A condutora que vinha atrás bateu na traseira do carro dela. ;Fui jogada para a frente, em cima da mulher com a criança. Entrei em desespero. Só pensava ;onde está o bebê;. Graças a Deus o bebê não se feriu e senhora teve um ferimento leve no pé;, relembra.

Na opinião de Alice, a pressa dos condutores e as distrações ao volante têm contribuído para o desrespeito recorrente da faixa. ;A pessoa acha que um segundo parado vai fazer diferença na sua rotina. E nem sempre dirige com a atenção necessária. Às vezes, nem precisa do telefone para se distrair, porque começa a dirigir de forma automática. Infelizmente, as boas práticas de respeito ao pedestre estão caindo em desuso.;

O respeito ao pedestre na faixa é uma realidade em Brasília há 18 anos. Uma história com bons e maus momentos (veja na página 18). A distração, a pressa, a sinalização ruim e a falta de rigor na punição do motorista, porém, ainda são um terreno fértil para a proliferação das infrações. Na tentativa de frear as fatalidades sobre a faixa de pedestre, no ano passado, o Detran foi às ruas com a campanha Faixa Cidadã, uma combinação de ações educativas e punitivas. Não conseguiu reduzir o número de mortos. Mas deu visibilidade a uma parcela de motoristas que ignoram a faixa. Ao todo, os agentes aplicaram 10.169 multas, número 359% maior do que o registrado em 2013, e o maior desde 1997 (veja quadro).

Como em tantos outros casos, o argumento de ;indústria da multa; não justifica o recorde, uma vez que o Detran avisou com antecedência que ia autuar quem desrespeitasse o equipamento de segurança. Com o slogan Sou brasiliense. Sou cidadão. Eu respeito a faixa, os agentes trabalharam duas semanas em cada região administrativa. Na primeira, a equipe de educação distribuiu panfletos, deu dicas de segurança e avisou que, na semana seguinte, haveria blitz para punir os infratores da faixa. A autarquia também envolveu as escolas públicas e privadas num concurso para a escolha do mascote e o jingle da campanha. Apesar da ação que combinou educação e punição, 2014 fechou com sete atropelamentos sobre a faixa ; cinco a mais que em 2013.

Guerra no asfalto
No Setor Comercial Sul, no coração de Brasília, o conflito entre pedestres e motoristas é evidente. Em todas as faixas que permitem ao pedestre passar de uma quadra a outra, há semáforos. Mas eles estão desligados. Esse é um dos principais instrumentos de controle para locais com fluxo intenso de pessoas a pé e de veículos. Lá, é comum ver o motorista passar sobre a faixa antes que a pessoa termine a travessia. Nos casos mais graves, ele avança até sobre as pessoas. O taxista Everson Lopes Coelho, 28 anos, critica o fato de o semáforo estar desligado. ;É complicado, porque aqui passa muita gente. Se o motorista não abrir caminho, ele fica parado o dia todo esperando. E os pedestres nem olham. Vão passando. Por isso, a gente acaba avançando;, admite. Segundo ele, no aeroporto, o problema se repete.

A queixa é mútua. A vendedora de açaí Marlene dos Santos da Cruz, 45, trabalha na região e diz que a rotina é sempre a mesma. ;Motorista não respeita a faixa aqui. Alguns nem param. E, quando param, estão apressados e não esperam a gente chegar do outro lado;, conta. Ainda assim, a vendedora ressalta que em Brasília a situação do pedestre é mais confortável do que em São Paulo. Em nota, o Detran informou que é preciso fazer obras para levar energia aos semáforos e que o processo está em fase de contratação da empresa.

Leia mais na página 18

O que diz a lei
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), deixar de dar preferência ao pedestre que se encontra na faixa ou que não tenha concluído a travessia, mesmo com o sinal verde para o veículo, é infração gravíssima. A multa é de R$ 191,54 e o condutor perde sete pontos na carteira. Quem estaciona sobre uma faixa de pedestre comete infração grave, punida com a perda de cinco pontos na habilitação e multa de R$ 127,69. Parar o carro sobre a faixa é infração leve, punida com a perda de três pontos e o pagamento de R$ 53,20 de multa.




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