Policiais ocupam as faixas

Policiais ocupam as faixas

Como ocorreu em 1997, militares vigiam motoristas em pontos de travessia e multam infratores. Ação deve durar a semana inteira. Em várias regiões administrativas, o Correio fotografou flagrantes de desrespeito tanto de condutores quanto de pedestres

» ADRIANA BERNARDES
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)



Ao sair de casa ontem, os brasilienses com mais de 35 anos provavelmente tiveram uma sensação de déjà-vu. Duplas de policiais militares estavam a postos ao lado de faixas de pedestres no Plano Piloto e em outras regiões administrativas. Ao todo, foram mobilizados cerca de 350 policiais, sendo 150 deles integrantes da turma de formação da Polícia Militar que, em breve, estarão nas ruas. Além de orientar motoristas e pedestres sobre a importância do respeito à passagem exclusiva para quem anda a pé, eles multaram o condutor que ignorou a lei. No começo de 1997, essa foi uma das táticas usadas pelo Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTran) para conscientizar motoristas sobre a obrigatoriedade de respeitar o pedestre.

A ação ocorreu um dia após o Correio Braziliense dar início à série de reportagens ;Maioridade da faixa de pedestres;, que faz uma radiografia desses 18 anos de efetividade da lei. O comandante da Companhia de Motociclistas do BPTran, tenente Gilmar Silva, disse que a ação foi reforçada no Plano Piloto por ser a região para onde grande parcela da população do DF ; e até das cidades ao redor de Brasília ; se desloca diariamente para trabalhar e estudar. ;Faremos isso até sexta-feira. Também vamos levar o Teatro Rodovia para a plataforma superior da Rodoviária do Plano Piloto para lembrar às pessoas sobre a importância do respeito à faixa;, informa.

A presença dos militares causou estranhamento na nutricionista Amanda da Cunha Gomes, 24 anos. A moradora do Sudoeste saiu de casa por volta das 10h com destino à academia. E, em todas as faixas da comercial do bairro, havia PM. ;Olha que no Sudoeste tem muitas faixas e, em cada uma delas, havia duplas de policiais. Achei superesquisito. Eles ficaram bem em frente. Reduzi a velocidade do carro porque fiquei na dúvida se eles iam ou não atravessar. Aí mandaram eu seguir;, conta. Amanda diz ter suspeitado que eles estavam fiscalizando para saber se as pessoas ainda respeitam.

De acordo com o tenente, o foco da ação é educativo. Mas, caso o condutor ignore a preferência do pedestre, será multado. ;Não podemos fazer vista grossa para a infração. Não apenas na faixa. Mas também a falta de cinto e o uso de celular.; O Detran não informou se houve notificações ontem.

Poesia
Amanhã, o respeito à faixa de pedestres atinge a maioridade. Antes de 1; de abril de 1997, elas já estavam presentes nas ruas da capital, mas, assim como ocorre na esmagadora maioria das cidades brasileiras, eram ignoradas por motoristas e por pedestres. A insegurança no trânsito já era motivo de preocupação de uma parcela da sociedade desde o fim da década de 1970. E esse medo serviu de inspiração para Nicolas Behr escrever um poema sobre o tema. ;Escrevi o poema e não coloquei título. Aí alguém botou o nome de Travessia do Eixão;, conta. O poema virou música com o grupo Liga Tripa e, depois, na voz da Legião Urbana, no disco Em uma outra estação.

Ao longo da vida do escritor, a faixa de segurança serviu de inspiração em outros dois momentos: nos livros Brasífa-me e BrasíliA-Z. No primeiro, a poesia é um enigma. No segundo, é um conceito cidadão da faixa. Para ele, o respeito ao equipamento de segurança é, ao mesmo tempo, um fato concreto e um mistério. ;Por que pegou? Não sei. Talvez por causa campanha de educação. O brasiliense vive essa ditadura do automóvel.; Behr tem outros palpites. ;Houve uma conspiração da sociedade, uma vontade política e o papel fundamental da imprensa. Não podemos nunca nos esquecer da multa.; O fato é que, para o poeta, parar na faixa é um exercício de cidadania tal qual cantar o hino de frente para a Bandeira Nacional.

Três perguntas para
Jayme Amorim, diretor-geral do Detran

No Distrito Federal, nem todas as faixas de pedestres estão bem sinalizadas. Há oito meses, o Detran está sem contrato com a empresa que faz a manutenção dos equipamentos na maioria das regiões administrativas. O processo de licitação, finalizado no ano passado, foi cancelado pela atual gestão e um novo edital é elaborado.


Das cerca de 5 mil faixas existentes no DF hoje, quantas precisam ser revitalizadas?
Estimamos que cerca de 20% necessitam de manutenção. Levantamos os locais críticos e, mesmo sem o contrato, iniciamos a renovação da pintura com nossa própria equipe. Como servidor de carreira, assim que assumi, determinei que isso fosse feito. De janeiro a março, pintamos 217 faixas em Brasília e em 13 regiões administrativas, entre elas: Taguatinga, Brazlândia, Sobradinho, Ceilândia, Santa Maria e Planaltina.

Quais cidades o senhor considera que estão em situação crítica?
Sobradinho e Santa Maria. Isso porque essas cidades passaram recentemente pelo programa Asfalto novo. Nessas regiões, escolhemos pontos-chaves, como delegacias, escolas e hospitais, para pintar a faixa. E o resto da cidade será contemplado gradativamente.

O senhor tem estimativa de quanto tempo será preciso para que todas as faixas do DF passem por revitalização?
Precisamos concluir a licitação. Então, acredito que até agosto concluiremos o trabalho. Até lá, continuaremos fazendo o trabalho com nossa própria equipe. Amanhã (hoje), estaremos em Santa Maria.

Leia amanhã: a relação
de três gerações com a faixa.

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