A revolução do cinema latino

A revolução do cinema latino

Apesar da invasão hollywoodiana, diretores da região se destacam por investir em novas linguagens e ajudam a consolidar o continente como referência mundial

Ricardo Daehn
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto:  Martin Herrera Sol/Divulgação)
(foto: Martin Herrera Sol/Divulgação)

Em números absolutos, o cinema, em seis dos maiores parques exibidores da América Latina, poderia ser representado por um conglomerado de 5,5 mil salas em que circulariam quase 350 filmes de produção autêntica, extra-Hollywood, pronta para o consumo de 370 milhões de espectadores.


O mundo das porcentagens, porém, trata de lançar água fria, ao trazer para a realidade um mercado em eterno desenvolvimento, mas que em seu bojo não mobiliza nem 9% do público interessado em privilegiar a produção legítima de cada país (a invasão americana persiste). Em média (grosseira), cada habitante iria uma vez ao ano para o cinema, e, sim, o Brasil até que não estaria mal: concentrando dois terços dos 30 milhões totais de público. O universo descrito reúne dados do Brasil, ao lado do bloco integrado por Colômbia, Chile, Peru, Venezuela e Argentina.


Contudo, a conjuntura tem se mostrado favorável para a revolução dos latinos. ;Penso que o cinema latino-americano passa por um dos seus melhores momentos históricos. A cada festival, podemos ver que nas seleções, ao menos um ou dois filmes representam o bloco, com grande variedade de estilo. Há várias gerações de jovens que vão assegurar o brilho da região por muitos anos;, acredita o diretor argentino Benjamín Naishtat que, aos 29 anos, tem credenciais de participação em Cannes e a disputa pelo Urso de Ouro, na Alemanha, com o longa Bem perto de Buenos Aires (prestes a estrear em Brasília).


A maciça premiação de filmes latino-americanos, no último Festival de Berlim (do chileno Pablo Larraín à brasileira Anna Muylaert, passando pelo chileno Patricio Guzmán e pelo guatemalteco Jayro Bustamante) confirma tese pessoal de Naishtat: ;Reconhecidos no exterior, diretores como Carlos Reygadas (México), Karim A;nouz (Brasil) e Lucrecia Martel (Argentina) mostraram o caminho para que outros, humildemente, tomem a coragem necessária para adentrar projetos que honrem compromissos individuais, em termos criativos.;


Mesmo com a galopante inflação, desde 2007, o cinema argentino segue em desenvolvimento, com a produção anual de mais de 130 filmes. Com respaldo do circuito de arte, Bem perto de Buenos Aires exemplifica a comunicação alargada, na gramática do cinema, já que tem sido comparado ao brasileiro O som ao redor. ;Há semelhanças nos filmes, que têm a ver com sintomas de um mal-estar social comum a toda América Latina. Daí, a esperança de que o público brasileiro se interesse;, diz Naishtat.


O argentino endossa a tendência da integração das indústrias cinematográficas, particularmente em torno da América Latina que ;pode ocasionar um dos polos mais importantes do mundo, dadas qualidades e quantidades de títulos;. A coprodução, a seu modo de ver, já não se presta a completar orçamentos, como nos fins dos anos 1990, faz é gerar público internacional para as fitas.

Novos horizontes
De olho no público do continente, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) antecipa ao Correio, uma chamada pública de coprodução latino-americana, no programa Brasil de Todas as Telas, a ser efetivada em maio ; são R$ 5 milhões em recursos do Fundo Setorial do Audiovisual. ;Vamos simplificar e tornar viável para um coprodutor daqui se envolver em projetos com outros países, mesmo naqueles com os quais o Brasil já tenha acordos. Será estímulo para as empresas se internacionalizarem;, pontua o assessor internacional Eduardo Valente. Numa parceria, há de se levar em conta valores e conteúdos, opina o cineasta uruguaio Alvaro Brechner.


;Cada projeto matura em condições particulares. No Uruguai, por ser um país de apenas 3,5 milhões de pessoas, se tem um mercado muito limitado. Assim sendo, há vocação e necessidade de tentar associações no exterior. Há uma importante limitação econômica;, observa Brechner (do recente Mr. Kaplan), que já concorreu em Cannes e ao prêmio Goya (fundamental, no mercado espanhol). Com Chile, Colômbia, Equador e Peru, o Uruguai estará contemplado pelo projeto da Ancine, na razão de um quarto do montante. Projetos de ficção e animação receberão apoio de até R$ 250 mil. No patrocínio a documentários, o teto será de R$ 175 mil.


Para consolidar o apelo pelo documentário, vale o reforço de um dado: na Venezuela, mesmo com a baixa frequência do fluxo de público nacional (quase a metade, se comparado ao Brasil), um documentário sobre o ditador Marcos Pérez Jiménez mobilizou 165 mil espectadores. Também ilustram a força das coproduções, públicos da ordem de 26 mil (para os argentinos A sorte em suas mãos e Coração de leão) e, com plataforbem distintas, Trash ; A esperança vem do lixo (259 mil) e Praia do futuro (133 mil espectadores, na bilheteria).

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