Sob o rescaldo da ditadura

Sob o rescaldo da ditadura

Ricardo Daehn
postado em 31/03/2015 00:00
 (foto: Odd Andersen/AFP - 14/2/15)
(foto: Odd Andersen/AFP - 14/2/15)

Ao lado do argentino Fernando Birri (Tire dié) e do cubano Tomás Gutiérrez Alea (Memórias do subdesenvolvimento), o cineasta chileno Patricio Guzmán, recentemente premiado no Festival de Berlim, forma uma espécie de dream team da América Latina. Autor do maior filme denúncia da implantação da ditadura no Chile (A batalha do Chile), Guzmán, celebrado pelo melhor roteiro em Berlim (por El botón de nácar), acabou de ter seu documentário Nostalgia da luz apresentado em Brasília.

Que reflexão é a possível, quando o senhor recebe prêmios pelos documentários?
Os prêmios na realidade não significam muito para mim. O importante é que, com eles, o filme alcance maior propagação e haja mais distribuidores. A grande problemática dos documentaristas é a escassez de bons distribuidores e menos ainda de exibidores. Não temos na América Latina uma nova geração de distribuidores. A maioria não tem compromisso com o público.

Há uma afinidade temática que brota dos realizadores latinos. Qual é a ponte de comunicação entre países tão próximos?
Por muitos anos, a América Latina tem sido castigada pelo neoliberalismo econômico. Os ;chicago boys; chegaram ao Chile em 1976. Tudo se converteu num comércio e a única maneira de combate a essa praga é a formação de grupos independentes que trabalhem pela cultura, pela saúde, pelo aperfeiçoamento urbano etc. Não há erro em dizer que parte da esquerda adormeceu frente a esta situação. A única forma de superar essa tragédia está na formação de grupos independentes dos partidos tradicionais. A grande ideia da revolução dos anos 1960 tem sido realocada por rebeliões de tamanhos variados, por grupos de indignados, por gente rebelde que não aceita a corrupção das ideias ou mesmo a corrupção do dinheiro.


Existe esperança possível, em meio a tantas denúncias de crueldades e abusos... No seu cinema que fala de superação?
O meu filme mais relevante se chama A batalha do Chile. Graças a ele, a direita chilena nunca poderá negar aquele momento extraordinário, quando a utopia e a política foram sinônimos, durante o governo de Salvador Allende.


Quem destacaria, com realizador chileno?

O Chile cultiva um extraordinário movimento de documentaristas formado por uns 30 diretores. Também o cinema de ficção, a cada dia, ganha mais qualidade e prestígio. No entanto, os distribuidores chilenos e a televisão mercantil não oferecem o espaço necessário que a arte cinematográfica chilena merece.

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