O silêncio de Vaccari

O silêncio de Vaccari

Convocado para prestar depoimento na CPI da Petrobras na semana que vem, o tesoureiro do PT ficará calado. A estratégia petista é evitar mais desgastes à imagem da presidente Dilma, três dias antes de novas manifestações pelo país

JOÃO VALADARES
postado em 03/04/2015 00:00
 (foto: Roosewelt Pinheiro/ABr  - 30/3/10)
(foto: Roosewelt Pinheiro/ABr - 30/3/10)

O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, vai ficar em silêncio durante depoimento marcado para a próxima quinta-feira na CPI da Petrobras. Num acordo com o Partido dos Trabalhadores (PT), alegará o direito constitucional de permanecer calado e deve comunicar que responderá apenas em juízo. A estratégia do PT é não oferecer munição à oposição, que fará o segundo grande ato de protesto contra a presidente da República Dilma Rousseff, no próximo dia 12, três dias após a ida do petista ao colegiado. Os oposicionistas esperam colocar o dobro de gente na rua e, assim, reforçar o apoio para o impedimento da presidente.

O PT avaliou que, às vésperas da manifestação, a fala do tesoureiro poderia ser desastrosa para os planos de recuperação de popularidade de Dilma, que começaram a ser postos em prática. Cinco dias antes do primeiro protesto contra a presidente, o depoimento bombástico do ex-gerente de Engenharia da estatal Pedro Barusco, prestado em 10 de março, aumentou ainda mais a insatisfação contra a gestão da petista. Serviu como combustível.

Considerado um dos principais operadores do esquema, Barusco era o braço direito de Renato Duque na diretoria de Serviços. Ele contou que o PT pode ter recebido até 200 milhões de dólares com o esquema durante 10 anos.

Inicialmente, Vaccari só deveria prestar esclarecimentos na CPI da Petrobras em 23 de abril. No entanto, a oposição conseguiu manobrar e antecipar a convocação no momento em que o deputado Antônio Imbassahy (PSDB-BA) substituía o deputado Hugo Motta (PMDB-PB) na presidência do colegiado. Houve reação do PT.

Ontem, Motta acabou confirmando o depoimento de Vaccari para o dia 9. ;A decisão dele tem amparo regimental e deve ser respeitada, já que ele estava na condição de presidente no dia que anunciou. É uma praxe minha não desautorizar os demais membros componentes da mesa. Manterei o cronograma estabelecido pelo presidente em exercício, Imbassahy;, alegou.

O peemedebista disse acreditar que o tesoureiro vai contribuir com os trabalhos desenvolvidos até o momento pela CPI da Petrobras. ;Acredito que Vaccari virá em uma boa hora para a CPI e terá a oportunidade de esclarecer as diversas acusações feitas, inclusive na primeira oitiva realizada por este colegiado;, afirmou.

Vaccari é apontado pelo investigadores como operador do PT no esquema bilionário de pagamento de propina oriunda de contratos firmados entre empreiteiras e a Petrobras, desvendado pela Operação Lava-Jato. Os procuradores da República indicam que o petista articulava reuniões com o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque. A investigação revelou que o tesoureiro indicava as contas onde as doações, a título de propina, deveriam ser depositadas. Os subornos, segundo o Ministério Público Federal, eram pagos por meio de doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores. Segundo a investigação, Vaccari seria o responsável pela manobra para ;lavar; o dinheiro sujo. Foram identificadas 24 doações em 18 meses. O PT afirma que todas as doações foram legais.

As suspeitas
As investigações relacionaram a suposta entrega de dinheiro para Marice Corrêa de Lima, cunhada do tesoureiro do PT, solicitada por um executivo da empreiteira OAS com duas movimentações da contabilidade do ;money delivery;, operado pelo doleiro Alberto Youssef, um dos principais operadores do esquema.

Na denúncia criminal que ofereceu contra seis executivos do Grupo OAS, o Ministério Público Federal considerou como elemento de prova o cruzamento do monitoramento telefônico do doleiro, com José Ricardo Nogueira Breghirolli, com a contabilidade informal de Youssef para indicar o pagamento de valores para Marice, em dezembro de 2013.

A estratégia escolhida por Vaccari não é nova. Vários depoentes da CPI do Cachoeira, que investigou, em 2013, as ligações criminosas da empresa Delta com políticos e outros agentes públicos, utilizaram o direito constitucional de permanecer em silêncio. Em 19 de março, Renato Duque se reservou ao direito de ficar calado na CPI da Petrobras. ;Existe hora de falar e hora de calar. Esta é a hora de calar;, afirmou Duque, que seguia a orientação dada pelo advogado. Vaccari deve justificar exatamente da mesma maneira. ;Não pensei que fosse tão difícil ficar calado, mas, por orientação da minha defesa, ficarei calado;, emendou Duque. Os envolvidos na Operação Lava-Jato não têm obrigação de falar à comissão, já que a Constituição não exige que os cidadãos produzam provas contra si mesmos.

Após cinco horas de depoimento, mantendo o silêncio, ele só reagiu quando os parlamentares ameaçaram convocar a mulher dele.


As acusações
João Vaccari Neto, tesoureiro do PT desde 2010, foi denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Ele é apontado como operador do PT no esquema de pagamento de propina oriunda de contratos firmados entre empreiteiras e a Petrobras.

Conforme os investigadores, Vaccari articulava reuniões com o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque para fazer o acerto das propinas.

Os subornos, segundo o Ministério Público Federal, eram pagos por meio de doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores. Segundo a investigação, Vaccari seria o responsável pela manobra para ;lavar; o dinheiro sujo.

Os procuradores da República identificaram 24 doações em 18 meses.

Vaccari é apontado como o responsável por indicar as contas onde os recursos deveriam ser depositados. Conforme o MPF, ele tinha consciência de que os pagamentos eram feitos a título de propina.

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