Deficit recorde surpreende Levy

Deficit recorde surpreende Levy

Contas públicas pioram e rombo nominal vai a 7,34% do PIB. Segundo analistas, governo terá que fazer ajuste mais duro para cumprir metas

» ROSANA HESSSEL
postado em 03/04/2015 00:00
 (foto: Nelson Almeida/AFP)
(foto: Nelson Almeida/AFP)


O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, tem encontrado as contas públicas em pior estado do que imaginava no início de dezembro de 2014, quando aceitou o convite da presidente Dilma Rousseff para substituir Guido Mantega. Na época, Levy esperava que o país crescesse 0,8% em 2015 e, assim, se comprometeu a fazer superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida) de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), ou R$ 66,3 bilhões, algo considerado muito ambicioso por especialistas.

De lá para cá, muita coisa mudou. Levy herdou de Mantega um rombo de R$ 32,5 bilhões, ou 0,6% do PIB. A economia não cresce como ele previa ; projeções do mercado apontam para queda de até 1,5% neste ano. Em consequência, a arrecadação vem caindo. Prova disso é que o deficit primário acumulado em 12 meses até fevereiro foi de R$ 35,8 bilhões, ou 0,69% do PIB. Para piorar, o resultado nominal no mesmo período foi recorde: ficou no vermelho em R$ 379,5 bilhões, ou 7,34% do PIB, um dos maiores do mundo. Nessa conta, a fatia de juros é o que mais pesa, pois equivale a 6,65% do PIB.

;Um deficit nominal desse tamanho preocupa muito porque tem um impacto direto sobre a dívida bruta do governo, que está em patamares elevados;, destacou o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa. Em fevereiro, ela somou R$ 3,4 trilhões, ou 65,5% do PIB, uma alta de 1,1 ponto percentual sobre o mês anterior.

Promessa inviável
Para este ano, Levy sinalizou a parlamentares, no Senado, que pretende entregar um resultado nominal negativo de 4,1% do PIB. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, considera a promessa inviável. ;É muito difícil isso acontecer porque significa alcançar a meta de superavit primário e ainda ter queda no pagamento de juros. Mas a Selic (taxa básica da economia, hoje em 12,75% ao ano) está aumentando;, afirmou.

O economista Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas (FGV), observa que nem quando os juros estavam em 7,25% o governo conseguiu entregar um deficit nominal de 4,1% do PIB. ;O ministro precisará de um crescimento de 1,5% na receita para conseguir cumprir as metas;, alertou. Para Pessoa, será preciso um arrocho fiscal muito mais duro do que Levy vem anunciando, com aumentos expressivos de impostos. ;No Brasil, infelizmente, é o único jeito de se fazer ajuste;, lamentou.

A expectativa de Newton Rosa é que em março o resultado nominal atinja um novo recorde, podendo ultrapassar 8% do PIB. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), apenas Líbano e Egito possuem deficits maiores que o brasileiro, de 13,8% e 11,6%, respectivamente. A Argentina, cuja economia está cambaleando há mais tempo que a do Brasil, tem resultado negativo de 4,8%. O Ministério da Fazenda não comentou o assunto.

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