Crônica da Cidade

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Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 03/04/2015 00:00
Devoradores do horizonte

Do ponto de vista histórico, não há praça mais importante em Brasília que a do Cruzeiro. Deitada no ponto mais alto do Plano Piloto, a 1.172m de altitude, é um mirante de braços abertos sobre a chapada. Tal qual os desbravadores de todos os tempos, os membros da Comissão de Localização da Nova Capital identificaram de pronto o cume do Sítio Castanho e nele, pouco tempo depois, Bernardo Sayão fincou a cruz feita de madeira bruta do cerrado.

Ao contrário do que se imagina, o Plano Piloto não nasceu no cruzamento dos eixos. Brotou da Praça do Cruzeiro, a partir de onde os topógrafos desceram demarcando o Eixo Monumental até a futura Praça dos Três Poderes. Depois, voltaram e locaram a interseção do sinal da cruz. Aos 79 anos, o topógrafo Ronaldo de Alcântara Veloso conta essa história.

A Praça do Cruzeiro acolheu a 1; Missa de Brasília. E durante os quase quatro anos de obras, mostrava aos visitantes a monumentalidade do terreno onde a nova capital do Brasil estava sendo construída.

Quando queria impressionar uma autoridade, e sempre queria, Israel Pinheiro o levava à Praça do Cruzeiro. O banqueiro francês Henri Burnier foi um deles. Levado ao teto de Brasília, o banqueiro rodou os calcanhares e comentou: ;Il parait qu;elle attendait la ville; (Parece que ele (o terreno) estava esperando a cidade;. Da praça, descia o grande vale que havia encantado outro francês, o botânico Auguste Glaziou, membro da Missão Cruls. ;Impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale.;

É esse horizonte que se deseja devorar com a suposta construção do Memorial a Jango.
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Reproduzo post do arquiteto Carlos Magalhães numa rede social. Durante longos anos, Magalhães foi representante do escritório de Oscar Niemeyer em Brasília:

;A contragosto, vou falar mais uma vez a respeito do Memorial Jango Goulart. Vou falar apenas para proteger a obra do Oscar, uma vez que ele me deixou documento que estabelece os limites e a conveniência da minha participação. Tenho certeza que a Fundação Oscar Niemeyer deve assumir essa discussão, que já tomou conta da cidade, depois que o Governo do Distrito Federal entender que deve voltar atrás, tirar o tapume construído de maneira açodada e sentar à mesa para discutir o problema que já está criado. Na minha opinião, o projeto não é bom e o rasgo feito na cúpula branca não tem nada com os desenhos do Oscar.

A seta vermelha é um deboche, não é arquitetura e não passa nem perto das formas delicadas que ele espalhou por Brasília e que valorizam o projeto do Lucio Costa. Aquilo não deve ser construído porque prejudica o conjunto da obra do Oscar. Parece que mãos de pedra brocaram a cúpula branca e fincaram a seta vermelha provocativa. Na minha opinião, não deve ser construído nem em Brasília nem em São Borja.;



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