Dunga, Sacchi e o café com pão da Seleção

Dunga, Sacchi e o café com pão da Seleção

postado em 03/04/2015 00:00
Dunga bateu papo com José Mourinho no Chelsea, visitou Jürgen Klopp no Borussia Dortmund, trocou ideia com Leonardo Jardim no Monaco, ouviu conselhos de Carlo Ancelotti no Real Madrid, mas não se engane: a inspiração do técnico da Seleção Brasileira neste início de segunda passagem pelo cargo é um senhor italiano de 69 anos que passou a Copa do Mundo de 2014 tomando pingado e comendo pão com manteiga ao lado dele nos cafés da manhã.

Arrigo Sacchi é o mentor de Dunga. Volta e meia o capitão do tetra se refere a um dos técnicos mais vitoriosos do futebol mundial. Não tem vergonha de dizer que se reciclou nas conversas com o treinador da Itália na final da Copa de 1994 e acredite: guardadas as devidas proporções, ele tenta imitar, ao menos taticamente, uma das maiores obras da biografia de Sacchi ; o Milan do fim do anos 1980 e início da década de 1990. Campeão de tudo, o time rossonero que tinha o trio holandês Gullit, Rijkaard e Van Basten, além dos italianos Baresi, Maldini e Ancelotti, é o último bicampeão da Liga dos Campeões (1988/89 e 1989/90).

Na vitória por 3 x 1 sobre a França, Dunga posicionou o Brasil em um esquema tático parecido com o do Milan de Sacchi. Na primeira passagem pelo cargo, ele e o auxiliar Jorginho morreram abraçados com o 4-2-3-1 na eliminação diante da Holanda. Agora, na carreira solo, o capitão do tetra apresenta como ;inovação; o 4-4-2 disfarçado de 4-4-1-1.

As duas linhas de quatro com Willian na direita, Luiz Gustavo e Elias por dentro e Oscar na esquerda saíram do papel para dar liberdade a Neymar e a Firmino, o homem mais avançado no sistema.

O Milan de Arrigo Sacchi também funcionava assim. A defesa contava com Tassotti, Costacurta, Baresi e Maldini. A primeira linha praticamente guardava posição para a segunda, formada por Donadoni, Rijkaard, Ancelotti e Colombo, auxiliar o trabalho do chamado número 1 do 4-4-1-1 ; Gullit ; e do centroavante Van Basten. Sacchi tinha foras-de-série de sobra. Dunga trabalha na linha da miséria de craques ; o único é Neymar ; e sem garantia de sucesso.

Em princípio, Dunga recorre à máquina do tempo de Sacchi na tentativa de aplicar na Seleção o que aquele Milan tinha de melhor. O timaço do italiano se defendia de forma compacta e curta. Formava uma rede defensiva de pequena profundidade ; 20 a 25 metros entre a última linha de defesa e o ataque ; e procurava fechar o adversário dentro dessa zona batizada de ;pressing; na Holanda e de ;el achique; na Argentina. No ataque, Dunga aplica uma outra característica dos times de Sacchi: o rápido contra-ataque. Sem chutões, mas combinatório, curto, rápido e coletivo. Basta rever os lances dos gols de Oscar e de Neymar contra a França.

Sacchi marcou época com o Milan e levou a Itália ao vice no Mundial de 1994. O então volante Dunga o derrotou na final e ergueu a taça. Como técnico, o capitão do tetra não tem sequer o direito de ser Sacchi (vice) na Copa América sob pena de não começar as Eliminatórias, mas pode consagrar na Rússia, em 2018, a reciclagem à base de pingado e pão com manteiga.





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