As lições de Cosete

As lições de Cosete

Formada na primeira turma de normalistas do Caseb, a vida da educadora se confunde com o dia a dia da instituição e o de Brasília. De família gaúcha, ela se apaixonou pelos sonhos de JK e apostou na nova capital

» Roberta Pinheiro
postado em 15/05/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)



;Acho que ele está lá em cima me olhando e dizendo ;muito bem;;, afirma a educadora Cosete Ramos. O ;ele; a que a mulher se refere é o ex-presidente Juscelino Kubitschek. Aos 73 anos, Cosete acredita que serviu ao país e, principalmente, ao projeto ambicioso de JK. Chegou à nova capital ainda mocinha, como descreve, em 1960. Aqui, formou-se na primeira turma de normalistas do Centro de Ensino Fundamental Caseb e depois estudou pedagogia na Universidade de Brasília (UnB). Passou alguns anos se especializando nos Estados Unidos, mas fez questão de retornar e atuar no desenvolvimento da educação. Nas palavras da professora, a razão é simples: a paixão pela capital, ;a Brasília dos meus amores;.

O entusiasmo com a mudança foi herdado do pai. O deputado gaúcho Ruy Ramos integrou o grupo denominado Mudancista, que colocou como missão a transferência da capital. Cosete aterrissou no aeroporto de Brasília ao lado de Ruy e da mãe, a professora Nehyta Ramos, integrante do primeiro grupo de mestres da cidade. Eles vinham de Alegrete (RS). Ao pisar no cerrado, o vestido branco ficou vermelho de terra. ;Meu pai era apaixonado por Brasília e ele passou isso para mim. Minha cabeça estava pronta para aceitar que o Brasil precisava sair do litoral. Quando cheguei aqui, pensei: ;Opa, estou no interior do Brasil;;, lembra.

Nas primeiras semanas de Brasília, a família ficou hospedada em um apartamento nas quadras 400. ;Daqueles sem pilotis ainda;, complementa Cosete. Cada membro recebeu um conjunto de toalha, lençol, travesseiro e cobertor da Nova Companhia Urbanizadora (Novacap), proprietária da residência. ;Na primeira noite, fazia frio. Abracei meus pais bem forte. Estava muito feliz e vivendo um momento histórico do Brasil.; A certeza concretizou-se em 21 de abril. Com o vestido de baile comprado para a ocasião e o primeiro sapato de salto, a gaúcha participou da festa de inauguração do sonho de JK no Palácio do Planalto. Nas lembranças da educadora, está claro o momento em que foi recebida pelo próprio presidente e pela esposa Sarah. ;Eu estava tremendo. Dona Sarah tomou as minhas mãos geladas e sentiu minha emoção. Que belo sorriso recebi! Nunca esquecerei;, recorda.

A educadora jamais esquecerá também do exemplo de JK. ;Para a nossa juventude, ele era um mito, porque propôs algo inconcebível. Ele estabeleceu cinco metas e a síntese de tudo era a inauguração de Brasília. Na hora, fundiu nossa cuca;, relata Cosete. Depois de discutirem as ideias na roda de amigos, os jovens concordaram com o presidente que aquele era o caminho do país. ;JK era o símbolo do Brasil novo;, resume. Hoje, ela afirma que se apaixonou primeiro por JK e depois por Brasília. No discurso proferido por ela na cerimônia de formatura da primeira turma de normalistas da Caseb, colocou em palavras a admiração. No fim, o mito se rendeu, deixou de lado o roteiro escrito e falou de improviso. ;O discurso da oradora da turma, Cosete Martins Ramos, trouxe, entretanto, uma nota admirável à reunião: revelou tal altura intelectual, tal maturidade de cultura que olho agora mais tranquilo o destino da educação no Planalto;, declarou JK, com os olhos marejados.

Atualmente, ao deitar-se na cama e fechar os olhos, a pioneira agradece à cidade e a todos aqueles que se engajaram na proposta. ;Sou privilegiada porque acompanhei os 55 anos da capital. Conheço diferentes locais do mundo, mas não há lugar igual a Brasília. Meu coração está aqui. Mesmo quando morei fora, sabia que tinha que voltar e contribuir para o desenvolvimento do país;, declara. Cosete foi professora do Elefante Branco e da UnB e trabalhou como técnica e dirigente do Ministério da Educação (MEC). Além disso, trouxe propostas inovadoras e escreveu diversos livros sobre a área.

Sotaques

Sentada no sofá do apartamento onde mora, na Asa Sul, Cosete folheia um livro sobre a capital. A cada foto, tem uma história para contar. Pode não ter nascido brasiliense, mas seus 55 anos na capital a transformaram em candanga e pioneira. E o que mais chamou a atenção da educadora foi a mistura de culturas. ;No primeiro dia de aula, sentados lado a lado, ali estavam o estudante falando ;gauchês;, perto de um nordestino ou de um nortista, de um carioca ou de um mineiro. Ouvia-se um imenso e diversificado sotaque. Brasília é a síntese do Brasil;.

Da vida tipicamente brasiliense, Cosete lembra de tudo. Nos anos 1960, os alunos saíam da aula e subiam na boleia dos caminhões de areia para pegar carona até o Congresso Nacional, onde ouviam os discursos dos deputados. ;Tenho amigos que até hoje sabem os textos de cor;, brinca. A integração das pessoas também vem à mente. ;Fraternidade define. A gente adotava outras famílias, de tão próximas que ficávamos;, conta. A ocupação da cidade era obtida aos poucos. ;Hoje, isso existe, mas de uma maneira cosmopolita. Os jovens estão se apropriando do que JK, Lucio Costa e Niemeyer deixaram e estão criando o próprio espaço;, finaliza.

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