MP avança sobre o núcleo político

MP avança sobre o núcleo político

Integrantes da força-tarefa oferecem denúncia contra quatro ex-deputados por participação no esquema de propina do petrolão. Eles são acusados por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa

» JOÃO VALADARES
postado em 15/05/2015 00:00
 (foto: Gisele Pimenta/Agência O Globo)
(foto: Gisele Pimenta/Agência O Globo)


Pela primeira vez, desde o início da Operação Lava-Jato, quatro políticos que não detêm mais mandatos eletivos e, portanto, perderam o foro privilegiado, foram denunciados no esquema de corrupção da Petrobras que pagou R$ 6 bilhões em propinas a partir de um cartel de empreiteiras. Na tarde de ontem, considerado um dia simbólico, os procuradores da República que investigam a organização criminosa montada para abastecer partidos políticos e financiar campanhas eleitorais com dinheiro sujo ofereceram denúncia à Justiça Federal contra os ex-deputados André Vargas (sem partido-PR), Luiz Argôlo (SD-BA), Pedro Corrêa (PP-PE) e Aline Corrêa (PP-SP), filha dele. As acusações indicam crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. Novas denúncias contra este mesmo núcleo ainda vão ser feitas.

Outros nove integrantes, sendo três operadores financeiros e seis pessoas próximas aos políticos, também foram enquadrados. Destacam-se o doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores da quadrilha; o seu funcionário Rafael Ângulo, que fazia a entrega da propina; o ex-executivo da Agência Borghi Lowe Ricardo Hoffmann; e os irmãos de André Vargas, Milton e Leon Vargas. ;Hoje é o primeiro dia em que se oferecem acusações criminais contra pessoas que estão dentro de núcleos políticos;, afirmou o procurador da República Deltan Dallagnol.

De acordo com a denúncia dos procuradores, Vargas é suspeito de receber dinheiro por meio de duas empresas fantasmas. A LSI e a Limiar já foram registradas em nome dele e hoje estão oficialmente na mão de seus irmãos. A Procuradoria-Geral da República sustenta que o ex-deputado é o controlador das contas das firmas, apontadas como de fachada. Só uma teve um único funcionário registrado por curto período de tempo.

Mesmo assim, receberam dinheiro de empresas vinculadas a órgãos do governo federal, o Ministério da Saúde e a Caixa. No Ministério da Saúde, uma agência de publicidade faturou R$ 126 milhões para serviços de comunicação, subcontratando produtoras. Ao elaborarem os vídeos, repassaram o bônus de volume, mais conhecido no meio publicitário como BV, para LSI e Limiar. As produtoras informaram aos investigadores que fizeram o repasse a pedido da agência de publicidade.

Na coletiva, ocorrida na tarde de ontem, o ex-deputado foi denunciado por três atos de corrupção ativa, 64 de lavagem de dinheiro e um de organização criminosa. Os valores envolvidos com comprovação chegam a R$ 1,1 milhão. Foram denunciados ainda 64 atos de lavagem de dinheiro e um ato de organização criminosa do ex-deputado.

Os investigadores apontam que Luiz Argôlo tinha uma espécie de sociedade com Youssef. Mensagens de celular trocadas entre os dois revelaram o grau elevado de intimidade. Eles se tratavam como ;amor; e ;bebê;. ;Ele criou relação de sociedade com Youssef. Então, muitas vezes, Alberto repassava dinheiro diretamente para Argôlo;, salientou o procurador da República Paulo Galvão. Ele destacou que o ex-deputado foi 78 vezes ao escritório do doleiro.

Viagens

Segundo o Ministério Público Federal, em pelo menos 40 viagens, o ex-parlamentar utilizou recursos da Câmara dos Deputados. De acordo com o procurador, Argôlo tentou viabilizar, por exemplo, um empréstimo do Banco do Nordeste ao hotel de Youssef. Uma reunião chegou a ser agendada entre funcionários do doleiro e o banco no ano passado, por intervenção do então deputado.

Com relação ao núcleo de Pedro Corrêa, os crimes denunciados foram de corrupção passiva, lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. ;Pedro Corrêa era um dos responsáveis pela distribuição interna do PP e recebeu valores específicos em benefício próprio;, afirmou Dallagnol. Corrêa foi denunciado por 280 atos de corrupção passiva. Foram denunciados 569 atos de lavagem de dinheiro e 123 de peculato. Os advogados dos denunciados só vão se pronunciar após terem acesso às denúncias.

Os denunciados

Ministério Público denuncia parte do grupo político, dividido em três núcleos, do esquema de corrupção na Petrobras. Confira:

1 ; Núcleo André Vargas

André Luiz Vargas Ilário,
ex-deputado federal pelo PT
Corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa
3 atos de corrupção ativa, 64 atos de lavagem de dinheiro e um ato de organização criminosa
Valor envolvido: R$ 1,1 milhão

; É suspeito de receber dinheiro por meio de duas empresas fantasmas. A LSI e a Limiar já foram registradas em nome dele e hoje
estão oficialmente na mão de seus irmãos, Leon e Milton Vargas. A Procuradoria-Geral da República sustenta que o ex-deputado é o controlador das contas das firmas. Receberam dinheiro de empresas vinculadas ao Ministério da Saúde, à Caixa, bem como do frigorífico JBS S/A e também da concessionária de rodovias Ecovias. Na Saúde, uma agência de publicidade recebeu R$ 126 milhões para serviços de comunicação, subcontratando produtoras.

Demais integrantes
Leon Dênis Vargas Ilário, irmão do ex-parlamentar
Corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa

Milton Vargas Ilário, irmão do parlamentar
Corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa

Ricardo Hoffmann, ex-executivo da agência Borghi Lowe
Corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa
2 ; Núcleo Luiz Argôlo

Luiz Argôlo, ex-deputado federal pelo Solidariedade
Corrupção, lavagem de dinheiro e peculato
10 atos de corrupção, 10 atos de lavagem de dinheiro e 93 atos de peculato
Valor envolvido: R$ 1,6 milhão
78 visitas ao escritório do doleiro Alberto Youssef
40 viagens realizadas com recursos da Câmara dos Deputados

; O ex-deputado é acusado de receber diretamente propina intermediada pelo doleiro Alberto Youssef, um dos principais operadores do esquema. Os dois, segundo a investigação, eram muito próximos. Os investigadores afirmam que eles tinham uma sociedade informal. O doleiro pretendia fazer de Argôlo um dos seus principais braços políticos no Congresso Nacional.

Demais integrantes
Alberto Youssef, doleiro e um dos principais delatores do esquema
Corrupção e lavagem de dinheiro

Rafael Ângulo Lopez, subordinado a Youssef. Fazia a entrega do dinheiro sujo
Corrupção e lavagem de dinheiro

Carlos Alberto Costa, advogado ligado a Youssef
Corrupção e lavagem de dinheiro
3 ; Núcleo Pedro Corrêa

Pedro Corrêa, ex-deputado federal pelo

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