Obama, o equilibrista

Obama, o equilibrista

Presidente oferece proteção a aliados árabes, que ameaçam com uma corrida nuclear em resposta ao acordo negociado com o Irã

» GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 15/05/2015 00:00
 (foto: Nicholas Kamm/AFP)
(foto: Nicholas Kamm/AFP)



Preocupado em contornar as reservas e as objeções das monarquias árabes do Golfo Pérsico ao acordo que seu governo negocia em torno do programa nuclear do Irã, o presidente Barack Obama assegurou ontem que os Estados Unidos estão atentos às preocupações de segurança dos aliados. Reunidos com o anfitrião na residência oficial de Camp David, representantes dos governos que integram o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) deixaram clara a determinação de equiparar as próprias capacidades nucleares às que forem permitidas a Teerã. Como alternativa a uma corrida armamentista na região, Obama ofereceu maior cooperação militar e, segundo o jornal The New York Times, garantiu que Washington defenderá os parceiros contra ;ataques externos; ;, mas com o cuidado de não sugerir hostilidade ao regime islâmico. ;O propósito da cooperação em matéria de segurança não é perpetuar uma confrontação de longo prazo com o Irã nem marginalizar o Irã;, ressaltou. Enquanto o presidente exercitava a diplomacia, a Câmara dos Deputados ratificou um projeto de lei, aprovado anteriormente pelo Senado, que dá ao Congresso o poder de revisar ou até rejeitar o acordo com Teerã, que deve ser concluído até junho.

A pauta do encontro com os enviados de Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Omã, Barein e Emirados Árabes Unidos ; os países-membros do CCG ; foi dominada pela questão iraniana. Assim como Israel, as monarquias sunitas do Golfo Pérsico suspeitam que o Irã, país persa e xiita, tem um projeto atômico militar. E temem que a liberação de bilhões de dólares, hoje bloqueados por sanções internacionais, ajude a fortalecer o adversário.


"A Arábia Saudita terá qualquer coisa que os iranianos tiverem;

príncipe Turki bin Faisal, ex-chefe da Inteligência saudita


Segundo Ben Rhodes, vice-conselheiro de Comunicação Estratégica da Casa Branca, o presidente procurou tranquilizar os visitantes e informou que o governo americano está aberto à ideia de oferecer aos parceiros do CCG o status de ;principais aliados extra-Otan;, o que permitiria ampliar a assistência militar. O assessor indicou que Washington estuda agilizar a prestação de apoio em defesa antimísseis, contraterrorismo e controle de fronteiras. ;Não haverá necessidade de corrida por armas nucleares nessa que já é a parte mais volátil do mundo;, considerou o assessor de Obama.

Rhodes negou que algum dos representantes árabes tenha indicado formalmente o desejo de desenvolver um programa nuclear, mas o Times relatou que a Arábia Saudita e outros vizinhos pretendiam manifestar a Obama o entendimento de que deveriam ter as mesmas capacidades de enriquecimento de urânio que forem permitidas ao Irã no acordo (leia o quadro). ;Não podemos nos sentar e recostar enquanto o Irã é autorizado a manter boa parte das capacidades e desenvolver as pesquisas;, argumentou um líder árabe. Em visita à Coreia do Sul, o príncipe Turki bin Faisal, ex-chefe da Inteligência saudita, afirmou que o reino terá ;qualquer coisa que os iranianos tiverem;.

Gunther Rudzit, coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e especialista em questões de defesa, avalia que a estratégia saudita é pressionar Washington para que as capacidades iranianas sejam reduzidas ao mínimo. ;Eles querem deter o avanço da influência iraniana, pois um Irã como potência nuclear alteraria drasticamente o equilíbrio de poder na região;, observa.

Congresso

As negociações entre o Irã e o grupo P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) foram retomadas, na Europa, e os diplomatas pretendem apresentar até o fim de junho um acordo definitivo sobre o programa nuclear de Teerã. Deputados americanos, no entanto, aprovaram por 400 votos contra 45 um projeto de lei bipartidário que permitirá ao Congresso revisar o texto.

A proposta já havia sido aprovada pelo Senado, e a Casa Branca indicou que Obama não exercerá o poder de veto. Apesar de o tratado com o Irã envolver todos os membros do P5+1, a interferência do Congresso dos EUA, dominado pela oposição republicana, pode colocar em risco o sucesso das negociações. A redução das capacidades nucleares do Irã deve ter como contrapartida o levantamento de sanções ; o que, no caso dos EUA, depende dos congressistas.



Gafe presidencial

Barack Obama enganou-se de geração quando celebrou os 75 anos de relações diplomáticas entre EUA e Arábia Saudita, ao receber os dois príncipes herdeiros do trono de Riad. Mencionou ;uma amizade extraordinária que remonta à era de Franklin Roosevelt e do rei Faisal;. Este, porém, ascendeu ao trono apenas em 1964, com a morte do pai, Abdul Aziz bin Saud ; que firmou com Roosevelt o estabelecimento de relações, em 1940.

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