Abandono em alto-mar

Abandono em alto-mar

Sem comida e água, milhares de imigrantes correm o risco de morrer. ONU exige socorro das autoridades

postado em 15/05/2015 00:00
 (foto: Chistophe Archambault/AFP)
(foto: Chistophe Archambault/AFP)



Milhares de pessoas que deixaram Mianmar e Bangladesh com esperança de desembarcar na costa da Tailândia, da Malásia, da Indonésia e da Austrália estão à deriva no mar do Sudeste da Ásia. Sem comida, água potável ou condições mínimas de higiene, os imigrantes imploram por ajuda, enquanto governos da região impedem as embarcações de se aproximarem do continente. Dezenas de organizações humanitárias tentam interceder pelos imigrantes e pedem que eles sejam recebidos por motivos humanitários. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, apelou às autoridades regionais para não darem as costas aos imigrantes e lembrou que o resgate no mar é uma obrigação internacional.

;Por favor, nos ajudem. Não temos água;, suplicaram imigrantes a um grupo de jornalistas estrangeiros que se aproximou do barco de madeira onde centenas de pessoas se amontoavam, próximo à costa da Tailândia. ;Somos 300. Estamos no mar há dois meses. Queremos ir para a Malásia, mas não conseguimos chegar ao país;, disse um homem de Mianmar. ;Dez pessoas morreram durante a viagem e jogamos os corpos ao mar;, contou. Na embarcação em que estava, uma faixa em inglês identifica os passageiros: ;Somos rohingas de Mianmar;. Rejeitados em seu país, os rohingas são um povo apátrida e uma das minorias mais perseguidas do mundo. Na tentativa de sobreviver, alguns deles beberam a própria urina e foram vistos comendo pedaços de cordas.

Para conseguirem vaga nas embarcações, eles desembolsam grandes quantias em dólares, mas o pagamento não é garantia de que chegarão ao destino. A viagem, organizada por quadrilhas internacionais, é difícil: os imigrantes passam dias sem alimento ou água, em barcos muito pequenos e desprovidos de banheiros. Não são raros os casos de pessoas agredidas e até assassinadas por traficantes ou condutores responsáveis pela viagem.

Há anos, grupos de rohingas buscam refúgio nos países da região. De acordo com organizações humanitárias, não existe apenas uma razão para o recente aumento no fluxo de imigrantes. Minoria muçulmana em um país majoritariamente budista, os rohingas sofrem com ações governamentais que dificultam o trabalho e a sobrevivência da comunidade.

Uma ação recente das autoridades da Tailândia para combater o tráfico humano também teve consequências para os imigrantes. Autoridades do país descobriram covas comuns com os corpos de 33 imigrantes de Mianmar e de Bangladesh e, em seguida, lançaram uma operação contra campos de contrabando humano no sul da Tailândia. Dezenas de policiais foram acusados de cumplicidade no crime e, desde então, o país aumentou a vigilância.

Proibição

A Malásia proibiu, ontem, que dois barcos com 600 pessoas se aproximassem, seguindo os passos da Indonésia. Fontes de Kuala Lumpur e de Jacarta disseram que não podem comportar os imigrantes e precisam transmitir uma mensagem clara, a fim de evitar que mais pessoas busquem abrigo nessas nações.

O diretor adjunto da Human Rights Watch na Ásia, Phil Robertson, afirmou ontem que ;o mundo julgará; a resposta da região aos imigrantes vulneráveis. O porta-voz do Departamento de Estado americano, Jeff Rathke, pressionou os asiáticos. ;Exigimos que países da região trabalhem juntos para salvar vidas no mar;, disse ele, em Washington.

Resgate no Mediterrâneo

Quase 3,6 mil imigrantes do Norte da África foram resgatados entre terça-feira e ontem, quando tentavam chegar à Europa. Uma das principais entradas de ilegais no continente, a Itália deve receber 200 mil imigrantes neste ano, 30 mil a mais do que em 2014, de acordo com o Ministério do Interior. A Comissão Europeia apresentou na quarta-feira uma proposta para que os membros do bloco acolham 20 mil imigrantes nos próximos dois anos.

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