Jihadistas ameaçam tesouro arqueológico

Jihadistas ameaçam tesouro arqueológico

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 15/05/2015 00:00
 (foto: Joseph Eid/AFP)
(foto: Joseph Eid/AFP)




Menos de dois quilômetros separavam ontem os jihadistas do Estado Islâmico (EI) de uma das maiores joias da civilização. Autoridades sírias e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) temem a destruição das ruínas de Palmira ; cidade cujos registros datam de 2 mil anos antes de Cristo, situada em um oásis, 213km a nordeste de Damasco. Antiga capital de um reino local, ela foi tomada pelo Império Romano, no século 1 d.C., tornando-se estratégico entreposto para rotas comerciais. ;Se o Estado Islâmico entrar em Palmira, isso significará sua destruição. Se a cidade cair, isso será uma catástrofe internacional. Uma repetição da barbárie e da selvageria que vimos em Nimrud, em Hatra e em Mossul;, alertou Mamun Abdulkarim, diretor das Antiguidades e Museus Sírios, em entrevista à agência France-Presse.
Estimativas dão conta de que os militantes controlam cerca de 4.500 sítios arqueológicos do Iraque e da Síria.

Desde 1980, Palmira é considerada pela Unesco patrimônio da humanidade. As ruínas, que misturam técnicas greco-romanas e influência persa, foram descritas pela agência da ONU como de ;valor universal excepcional;. O diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), Rami Abdel Rahman, confirmou que o complexo arqueológico está sob ameaça. ;O EI tomou todos os postos do Exército sírio entre Al-Sukhna e Palmira;, contou. De acordo com o ativista, as tropas sírias ficaram ;chocadas; com os avanços ;significativos e repentinos; dos jihadistas na área. Durante a incursão pela região, os terroristas executaram 26 civis, 10 deles por decapitação, sob a acusação de ;colaborarem com o regime;. Os combates contra forças do regime do ditador sírio, Bashar Al-Assad, deixaram pelo menos 110 jihadistas mortos.

Preocupação

Em visita ao Egito, Irina Bokova, diretora-geral da Unesco, declarou estar ;profundamente preocupada; com o destino de Palmira. ;É preciso salvá-la;, cobrou. Segundo ela, o saque de sítios arqueológicos atingiu uma ;escala sem precedentes;. ;A limpeza cultural está sendo usada como tática para aterrorizar a população. É um crime de guerra;, disse. Sob condição de anonimato, um jornalista sírio simpatizante do Estado Islâmico que morava em Homs (a 153km de Palmira) garantiu que a população de Tadmur ; cidade a 500m das ruínas ; apoia os jihadistas. ;A maior parte dos moradores são sunitas e estão com o EI;, comentou. Ele enviou à reportagem fotos de habitantes de Al-Sukhna, próximo a Tadmur, saudando os seguidores de Abu Bakr Al-Baghdadi. ;Palmira será destruída, mas não a curto prazo. O Estado Islâmico pretende enfurecer os Estados Unidos e a Europa e isso faria com que mais muçulmanos cerrassem fileiras com o grupo.;

Por e-mail, Nigel Pollard, historiador da Swansea University (País de Gales), lamentou o fato de que qualquer intervenção do Ocidente para proteger Palmira seria algo bastante difícil. ;Se qualquer dano ocorresse ao sítio, isso representaria uma violação do direito internacional. O mundo deveria fazer o possível para processar as pessoas implicadas em tal ato. Se Palmira sofrer saques, a comunidade internacional precisará assegurar que a recente proibição, imposta pela ONU, da venda de artefatos sírios seja aplicada, a fim de desencorajar a pilhagem por motivos financeiros;, afirmou ao Correio o especialista em história antiga síria, que visitou o local por várias vezes.



Mensagem de convocação aos muçulmanos

;Não há desculpa para qualquer muçulmano não migrar para o Estado Islâmico. Escolher (a luta) é um dever de todo muçulmano.; Na mensagem, a primeira em seis meses atribuída a Abu Bakr Al-Baghdadi, líder do grupo terrorista, o interlocutor convoca os seguidores de Alá e do profeta Maomé a migrarem para o califado islâmico em áreas do Iraque e da Síria. Ele também faz menção à campanha aérea lançada pela Arábia Saudita contra rebeldes xiitas huthis no Iêmen e critica a família real de Riad.

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