Furto para alimentar filho provoca comoção

Furto para alimentar filho provoca comoção

A história do homem que roubou carne no mercado porque a família passava fome emocionou não só os policiais de uma delegacia, que se cotizaram para pagar a fiança e comprar comida para o desempregado, mas também gente de todo o país

» PALOMA SUERTEGARAY » KELLY ALMEIDA » CAMILA COSTA » LUIZ CALCAGNO
postado em 15/05/2015 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)



O ato extremo de um pai de Brasília para não ver o filho com fome causou repercussão em todo o país. Mário Ferreira Lima, 45 anos, foi preso depois de furtar 7kg de carne em um mercado de Santa Maria, na última quarta-feira. Levado para a 20; Delegacia de Polícia, no Gama, chorou, passou mal e disse ter cometido o crime para não faltar comida em casa. A história comoveu, primeiro, agentes e delegados da unidade. Eles pagaram a fiança, fizeram compras para Mário e demonstraram sensibilidade com a dor alheia. O clima de solidariedade não ficou restrito à Polícia Civil. Ontem, milhares de pessoas, inclusive de outros países, mostraram-se dispostas a ajudar o eletricista desempregado. Apesar de toda a mobilização, Mário vai responder, ainda que em liberdade, pelo crime de furto. O inquérito será encaminhado ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O promotor que pegar o caso decidirá se oferece a denúncia. Caso o processo vá em frente e ele seja condenado, pode ficar até quatro anos preso.

Graças ao ato dos policiais civis, a rotina de Mário teve uma reviravolta em menos de 24 horas. Depois de vários meses de escassez, agora, a geladeira está cheia. Nas estantes da cozinha, têm feijão, arroz, macarrão, biscoitos e latas de sardinha. ;Eu não comia carne há meses. Como não tinha gás, cozinhava tudo a lenha, entre dois tijolos, no quintal. Hoje (ontem), é o dia mais feliz da minha vida;, diz.

Crime

Apesar de toda a comoção, especialistas lembram que nada justifica um crime. ;Do ponto de vista social, é uma tragédia, mas o fato é que estamos diante de uma ação penal;, pondera o presidente da Associação dos Magistrados do DF (Amagis-DF), o desembargador Sebastião Coelho da Silva. Ele ressaltou ainda que juízes brasilienses têm discernimento para saber quem é criminoso e quem pratica um ato tido como criminoso. ;Fui, por toda a minha vida, juiz da vara criminal. Eu não daria início ao processo.;A opinião é compartilhada pelo presidente da Comissão de Ciências Criminais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-DF), Alexandre Queiroz: ;Em tese, o fato é crime, mas tem que analisar todas as circunstância. Antes de tudo, é uma advertência para as sociedades. Isso mostra que precisamos de políticas públicas mais eficientes.;

Depois do furto, Mário foi levado à 20; DP, central de flagrantes da região. Devido ao nervosismo e como não comia bem há dias, teve um princípio de desmaio. O desespero dele chamou a atenção dos agentes, que decidiram ajudá-lo. O delegado da unidade estabeleceu fiança equivalente a um salário mínimo, mas o valor foi reduzido para R$ 270. Uma das policiais, que preferiu não se identificar, se dispôs a pagar a fiança. ;Estou cansada de ver escândalos de corrupção em que políticos não têm dificuldade em deixar a delegacia. Enquanto isso, pessoas que furtam por fome são presas;, avalia. Apesar de ressaltarem que Mário Ferreira cometeu um crime, policiais e delegados disseram que foi difícil não se colocarem no lugar dele. Ricardo Machado, 35 anos, está há nove meses na Polícia Civil do DF. Ele também se sensibilizou ao sair da seção em que trabalha e se deparar com o desempregado. ;Ouvi a história e dei a ele R$ 30 para pagar a carne. Voltei para a seção e conversei com os colegas. Todos pensaram em uma forma de ajudá-lo. Arrecadamos mais R$ 80;, conta.

Os policiais decidiram, então, ir até a casa do acusado saber se o que contava era verdade. ;Descobrimos que a situação era pior do que ele havia relatado. Mas percebemos que o filho estava bem cuidado, alimentado e bem-vestido, enquanto o pai estava magro e sofrido;, ressalta Ricardo. ;Mário estava há dois dias sem comer, o último pão ele deu ao filho. Qualquer ser humano se comoveria;, acrescenta a agente Kelen Cristina Lemos, 35. ;No mercado, falamos para Mário pegar uma pasta de dente e ele pegou a menor e a mais barata. Da comida, falava que estava muito agradecido e qualquer coisa que pegássemos estava bom;, lembra o agente Ricardo. Apesar de toda a ajuda, o policial ressalta que, em momento algum, houve prevaricação. ;Não podemos deixar de falar do crime. A polícia agiu como deveria agir. Mas todos temos filhos, família. Nós nos colocamos no lugar dele.; Mário agradece: ;Achava que não existiam mais seres humanos como esses policiais. Eu me envergonho muito do que fiz e vou responder por isso, mas serei eternamente grato à solidariedade deles;. Mário tem duas passagens pela polícia. Em 1989, foi levado à delegacia por acusação de furto qualificado. A segunda, de 2000, é referente a estelionato, crime pelo qual foi absolvido em 2009. Em ambos os casos, ele garante ser inocente. Como as ocorrências são antigas, os policiais da 20; DP não conseguiram levantar maiores detalhes.

Desemprego

A residência de Mário, no Jardim Ingá (GO), é humilde. As paredes da pequena sala foram decoradas com quadros coloridos pintados por um cunhado e uma foto do filho Diego, de 12 anos, fantasiado de oficial da Marinha. Ele e o pai dividem um pequeno quarto, onde dormem numa bicama. O eletricista nasceu em Caxias (MA) e mudou-se para Brasília com a família quando tinha 8 anos. ;Fui empregado de várias empresas, mas tive que largar tudo;, conta. O incidente que mudaria o rumo da vida de Mário aconteceu há um ano e três meses. A mulher dele, Leuzana Pereira da Silva, 39, andava de moto quando um carro bateu na traseira dela. O motorista do veículo fugiu sem prestar socorro. Ela ficou em coma por 18 dias. ;Durante um ano, passei quase todas as noites no hospital para cuidar dela.; Para dar conta, precisou pedir demissão. Desde então, a renda familiar se resume a R$ 70 que recebe de auxílio do Bolsa Família. Leuzana recebeu alta, mas, como ficou com diversas sequelas, não pode trabalhar e mora com parentes que têm estrutura para cuidar dela.

Em meio a tantas dificuldades, Mário diz ter chegado ao limite. ;Meu filho tinha ido para a escola sem comer. Fui visitar minha mãe para ver se ela podia me dar dinheiro, mas não tinha. Achando que a quantia do Bolsa Família tinha caído na conta, fui comprar comida;, conta. Mário pegou pão, bananas, uma bandeja de presunto e 7kg de coxão duro. Lembrou, porém, que o benefício seria pago apenas no dia 18. ;Pensei no meu filho com fome, não agi direito e coloquei a carne na bolsa. O segurança viu, me levou para uma sala e chamou a polícia;, explica. Segundo o gerente, decidir se o furto era uma necessidade não cabe a ele. ;Aqui, casos assim são recorrentes e não dá para saber a história de todo mundo. Também não justifica;, relata Ednaldo Belém, 38 anos.

Não podemos deixar de falar do crime. A polícia agiu como deveria agir.
Mas nos colocamos no ug

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