Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 15/05/2015 00:00

Se eu pudesse;

Teria sido menos arrogante.

Teria me arriscado mais ao ridículo.

Teria percebido há mais tempo que decisões mais importantes são tomadas no deserto da solidão. É ela quem funda o que somos.

Teria aceitado mais tranquilamente que a minha razão só interessa a mim. E que ela me faz perder amigos.

Teria aceitado também que todo mundo tem razão ; sabe-se lá o quê, onde e o quanto dói em cada um.

Teria percebido que a vida é o agora.

Se eu pudesse, teria tido quatro filhos, mesmo que tivesse de dividir o ovo em quatro partes. O amor, por certo, teria quadruplicado no meu peito.

Teria falado menos e feito mais.

Teria usado aquela blusa rosa, bufante, cheguei, quando todos usavam camisetinhas hippies.

Teria me recusado a ouvir a doutrinação esmagadora dos partidos stalinistas. Teria sido menos PcdoB e mais Libelu.

Teria morado um tempo na praia, seis meses só de biquíni e canga.

Se eu pudesse, teria assumido a minha juba pixaim na escola de meninas brancas de cabelo liso.

Teria pulado no palco para dar um beijo no Chico Buarque no show na Ceilândia. Eu estava no gargarejo e não tive coragem!

Teria cantado num karaokê. Morria de inveja de quem subia no palco e esgoelava ;pela longa estrada da vida;;

Ah, se eu pudesse, nunca teria me deixado enganar pelos preços abusivos das lojas de grifes e dos restaurantes de má qualidade e muita fama.

Teria aceito o convite deste jornal, nos anos 1990, para ir à Tailândia. Inventei mil desculpas para não ir ao encontro do perigo ; sabe-se lá qual.

Teria visto mais shows de Cássia Eller, quando ela ainda era figura fácil nos palcos da cidade.

Se eu pudesse, teria calado para não brigar com quem me é muito caro e teria soltado os bichos com quem não me faz diferença.

Se eu pudesse, teria aberto meu coração para quem quis se aproximar e eu não deixei.

Teria conversado mais com Paulo Bertran, se eu pudesse.

Teria comprado um lote nos primeiros condomínios irregulares do Jardim Botânico, se eu pudesse. Mas, legalista e medrosa, perdi a chance de morar no Lago Sul sem ter dinheiro pra morar no Lago Sul.

Teria ficado mais, muito muito muito mais tempo com meu bebê.

Teria passado as tardes catando amoras debaixo do bloco.

Teria tranquilizado meu coração, porque o perigo está em toda a parte, mas a felicidade só aparece quando a gente está distraído ; no dizer de Riobaldo.

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