Talvez, sejam os últimos românticos

Talvez, sejam os últimos românticos

postado em 15/05/2015 00:00

Não torço pelo São Paulo. Muito menos sou fã do Liverpool, na Inglaterra. Mas, de coração, lamento o fim de uma era no Morumbi e outra na terra dos Beatles. Protagonista de um dos duelos mais espetaculares na história do Mundial de Clubes da Fifa, Rogério Ceni deu adeus à Libertadores após a eliminação diante do Cruzeiro nas oitavas de final. Ícone do Liverpool, Steven Gerrard se despediu da Liga dos Campeões na fase de grupos. Amanhã, se exibirá pela última vez, em Anfield Road, com a camisa dos Reds, no Campeonato Inglês.


Lá se vão 10 anos desde a final entre São Paulo e Liverpool, em Yokohama, no Japão. Lembro como se fosse hoje. Maestro daquele Liverpool que derrotou o Milan de forma espetacular na final da Champions após estar perdendo por 3 x 0, Gerrard tentou de todas as formas colocar a bola na rede de Rogério Ceni na final do Mundial. Porém, em uma das maiores exibições individuais de um goleiro, Rogério Ceni fechou as portas para Gerrard.
Símbolos de uma era, Gerrard e Rogério Ceni têm muito em comum. Pegam tão bem na bola que somam quase o mesmo número de gols na carreira. O inglês tem 185 em 708 jogos pelo Liverpool ; único clube da vida dele. Na lista dos 10 títulos conquistados de 1998 a 2015, só faltaram o Campeonato Inglês e o Mundial de Clubes da Fifa. Esse último, culpa de Ceni. Amanhã, será um dia de fortes emoções em Anfield Road. Não é apenas a saideira de Gerrard, em casa, contra o Crystal Palace. É o adeus de quem ressuscitou um clube carente de um ídolo e de títulos.


Na última Copa do Mundo, eu ficava inquieto com as afirmações de que o excelente Neuer estava revolucionando sua posição ao atuar como goleiro-líbero. Respeito quem comprou a ideia, mas Rogério Ceni fazia isso muito antes de Neuer. Azar de quem não aproveitou o talento dele ; com as mãos e os pés ; na Seleção Brasileira. Carlos Alberto Parreira pisou na bola ao colocá-lo em campo no lugar de Dida nos últimos oito minutos da vitória por 4 x 1 sobre o Japão, em 2006. Por que não usou Rogério Ceni desde o início, em uma partida que não valia mais nada na fase se grupos? Ceni entrou em campo aos 82 minutos. Sacanagem. Foi a única aparição do goleiro que estava à frente do seu tempo em uma Copa do Mundo. Era melhor não ter sido assim.


Rogério Ceni é tão brother da bola que tem 58 gols a menos do que Gerrard na carreira. São 127 em 1.210 exibições pelo São Paulo. Empate técnico considerando que ele é goleiro. Assim como o inglês, o capitão tricolor tem suas frustrações. Falta o título da Copa do Brasil. Talvez, a motivação para continuar jogando, aos 42 anos.
O futebol de alto nível e, principalmente, Liverpool e São Paulo sentirão falta de Steven Gerrard, de malas prontas para se apresentar ao Los Angeles Galaxy, da MLS; e de Rogério Ceni, cada vez mais perto de pendurar as luvas. Afinal, se ainda existe amor à camisa, os protagonistas da final do Mundial de Clubes de 2005 são, como diria a música de Lulu Santos, os últimos românticos do litoral deste (e do outro lado) do Oceano Atlântico.

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