O HD está cheio, mas o cérebro%u2026

O HD está cheio, mas o cérebro%u2026

Estudos apontam que a facilidade de buscar dados na internet está afetando funções cerebrais, especialmente a capacidade de reter novas informações

» Paloma Oliveto
postado em 17/05/2015 00:00




Na era Google, não existe pergunta sem resposta. Quantas páginas havia na internet no mês passado? O próprio buscador dá o feedback em 0,68 segundo: 1 bilhão de sites ativos. Os nomes das 14 luas de Netuno e suas respectivas fotos estão a um clique de distância, assim como a filmografia completa de Alfred Hitchcock, os fatores de risco do câncer de mama e o número de tatuagens de Angelina Jolie (17). De dados importantes à cultura inútil, boa parte do conhecimento produzido no mundo está ali. Tanta informação deveria deixar a humanidade bem mais inteligente que no passado. Mas há controvérsias.

O debate não chega a ser novo. Desde meados da década de 1990, discute-se o impacto da web no cérebro. A novidade é que, se até 10 anos atrás, muito do que se dizia ficava no campo das opiniões pessoais, agora começam a ser publicados resultados de pesquisas robustas que investigam essas questões. Os estudos fornecem evidências científicas sobre a forma como a internet está remodelando as habilidades cognitivas. Apesar de os gurus da internet defenderem com garras e dentes que os jovens nunca foram tão espertos quanto agora, um corpo crescente de artigos evidencia que partes da cognição já foram afetadas de forma negativa ; não pela tecnologia, mas pelo uso que se faz dela.

Se os mecanismos de busca são uma ajuda valiosa e indispensável em um mundo cada vez mais veloz, recorrer ao Google como se ele fosse uma extensão natural da memória está provocando efeitos adversos na organização cerebral. Em 2011, foi publicado o primeiro estudo associando os mecanismos de busca a alterações no sistema de armazenamento de informações. Na pesquisa pioneira, divulgada na revista Science, pesquisadores da Universidade de Columbia, em Nova York, demonstraram que a ;cola; do indexador não é armazenada pelo cérebro. Na mesma velocidade que surge, a informação se esvai da mente. ;Desde o advento da internet, sites de busca como o Google mudaram a forma como nosso cérebro se lembra das informações;, escreveram os autores.

Diferentemente de muitos outros órgãos, o cérebro não é estático, mas plástico. Ele se remodela, criando conexões e ativando redes de neurônios alternativas, ao sabor das situações. No caso da pesquisa de Columbia, a equipe da psicóloga Betsy Sparrow constatou que, certas de que vão encontrar o que querem na internet, as pessoas simplesmente se esquecem de informações que, de outra maneira, armazenariam na mente. O estudo envolveu estudantes da Universidade de Harvard que tinham de responder a uma bateria de questões de conhecimento geral com nível de dificuldade alto. Quando achavam que poderiam acessar esses dados sem dificuldades e sempre que quisessem, os jovens tendiam a esquecê-los mais rapidamente.

Na nuvem
Na época, alguns especialistas avaliaram que isso não é tão grave quanto parece. Confiar no Google para se lembrar seria apenas uma variante da chamada memória transativa, um processo pelo qual as informações são puxadas coletivamente. Por exemplo, perguntar a um amigo como foi mesmo que um determinado fato se passou ou ligar para a mãe e confirmar a quantidade de sal em uma receita culinária. Agora, o cérebro teria agregado a internet ao ;grupo; com o qual pode contar nessas horas.

Nem todos os especialistas se sentiram à vontade com o fato de computadores e smartphones substituírem os seres humanos na hora de pedir essa ajuda. Pouco antes de morrer aos 65 anos, em 2013, o psicólogo social de Harvard Daniel M. Wegner, que desenvolveu, na década de 1980, o conceito de memória transativa, escreveu um artigo à Scientific American criticando o hábito de se recorrer ao Google antes de qualquer coisa. Wegner era, também, coautor da pesquisa da Universidade de Columbia.

;Essa tendência de distribuir a informação por meio do que chamamos de ;sistema de memória transativa; foi desenvolvido em um mundo de interações face a face, no qual a mente humana representava o pináculo do estoque de informações. Agora, esse mundo não existe mais. Com o desenvolvimento da internet, a mente humana se reduziu de uma potência para um fracasso;, afirmou. ;Convidar Siri do iPhone para fazer parte do grupo social muda tudo. Tratamos a internet muito como faríamos com um humano. Mandamos nossas memórias para a nuvem apenas como faríamos com um membro da família, um amigo e um amado (;). Pode ser o caso de a internet estar tomando o lugar não só de outras pessoas como uma fonte externa de memória, mas de nossas próprias faculdades cognitivas;, afirmou em seu contundente artigo.

Estudioso da memória de curto prazo, o pesquisador Erik Fransén, do Instituto Real de Tecnologia, na Suécia, diz que a internet está prejudicando o armazenamento de informações não apenas pela facilidade que se tem de acessá-las sem precisar raciocinar. Mas porque a rede rouba o tempo que o cérebro precisa para guardar dados e fatos. ;Quando tentamos inserir muitas coisas ao mesmo tempo na memória de trabalho, nossa capacidade de processar informação começa a falhar;, afirma. Esse tipo de memória é aquele que armazena temporariamente as informações recebidas, antes de decidir qual deve ser descartada e qual deve permanecer no cérebro.

Segundo Fransén, o bombardeio de textos, imagens e vídeos simultâneos ao qual as pessoas estão expostas ; particularmente agora, na era dos smartphones ; impede que o cérebro processe os dados corretamente. ;Por vez, esse sistema de memória consegue trabalhar com três a quatro tipos de informação, pois é um sistema limitado;, observa. ;Quando está no Facebook, você dificulta para o cérebro a tarefa de saber o que manter e o que eliminar. O cérebro não consegue consolidar a memória dessa forma;, alerta. O resultado é que, provavelmente, quase toda a informação acaba indo para o lixo. Algo que, na avaliação do especialista em neurodinâmica, é extremamente grave: ;A memória de trabalho é simplesmente o sistema cerebral de que precisamos quando nos comunicamos;.

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