Polêmica constante

Polêmica constante

postado em 17/05/2015 00:00
Boa parte das decisões que afetaram a Petrobras, considerada um símbolo nacional, foi cercada de polêmica. Em 2000, a empresa vendeu 31,72% do capital votante e 18,52% do capital total, com uma estratégia inovadora, que permitiu aos trabalhadores utilizarem parte do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para se tornarem acionistas. ;O problema foi a segunda oferta, na qual 81% dos papéis ; equivalente a 36% do total ; foram vendidos na Bolsa de Nova York. Ou seja, 36% do petróleo brasileiro ficou nas mãos dos estrangeiros;, afirma Fernando Siqueira, vice-presidente da Aepet.

O engenheiro lembra que, numa troca de ativos com a argentina Repsol, em 2001, a Petrobras entrou com 30% da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), 10% de um campo de exploração e 270 postos da BR, avaliados em US$ 500 milhões, para criar a Refap S.A. ;A Repsol deu uma refinaria velha e 600 postos de gasolina em contrapartida;, afirma. O problema, alega Siqueira, é que a Argentina entrou em crise no dia seguinte e a Repsol deu o calote. ;A Petrobras admitiu um prejuízo de US$ 330 milhões na operação;, lamenta. Ao recomprar os 30% da Refap, já durante o governo Lula, a estatal pagou US$ 800 milhões.

Em 2002, o saldo do PND era de 15 empresas de petróleo e gás vendidas por R$ 6 bilhões, o que representou 7,7% das privatizações. No setor petroquímico, foram 27 empresas alienadas por R$ 2,7 bilhões, cerca de 4% do PND. No mesmo ano, o governo também decidiu fechar o capital da BR Distribuidora, criada em 1971, como subsidiária de comercialização e distribuição de combustíveis e derivados do petróleo, com o objetivo de vendê-la depois. Privatizar é mais fácil, de acordo com especialistas, se o capital for fechado.

Fora do dicionário
Com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, na Presidência da República, em 2003, o processo de privatização de áreas dominadas Petrobras foi abortado. ;Com Lula, voltou a política de aumentar o poder do monopólio em todas as áreas possíveis. Foi um retrocesso. A estratégia de tornar a Petrobras mais uma campeã nacional fez parte do projeto político de usar a empresa para fazer o controle de inflação e ganhar eleições;, destaca o diretor do CBIE, Adriano Pires.

Em 2003, o então presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, chegou a afirmar que a palavra privatização não estava em seu dicionário. Pelo contrário, o executivo prometeu, e cumpriu, que a maior empresa do Brasil ampliaria sua participação no mercado nacional, voltando à área petroquímica, entrando no setor de distribuição de gás de cozinha, aumentando a capacidade de refino e produção de petróleo e tornando-se forte na produção de gás natural. O caminho foi seguido por José Sérgio Gabrielli, que presidiu a companhia no segundo mandato de Lula.

Até 2010, a Petrobras comprou a Suzano e a Unipar, a maior parte da Braskem e da Petroquímica Triunfo, e investiu em termelétricas por todo o país. Aumentou a estrutura da BR Distribuidora, com a compra da rede de postos de combustível e da Liquigás, distribuidora de gás GLP da italiana Agip por US$ 450 milhões. ;Eles entraram em petroquímicas, termelétricas, biodiesel e etanol, e a Petrobras perdeu o foco de empresa petrolífera e também a eficiência;, afirmou Pires, do CBIE.

De volta ao começo
Depois da Operação Lava-Jato, com a necessidade de, novamente, focar os negócios em exploração e produção de petróleo, todo o processo de ampliação do grupo Petrobras deve ser revertido. A estatal se agigantou demais. No balanço do ano passado, a companhia admitiu um rombo de R$ 6,2 bilhões com a corrupção e de R$ 44,6 bilhões com desvalorização de ativos. Para recompor o caixa, estuda um plano de desinvestimentos, pretende vender participações e cogita, inclusive, dividir a menina dos olhos, o pré-sal, com a iniciativa privada ; o que depende de mudanças na legislação. Algo impensável para um partido que aboliu a palavra ;privatização; do dicionário.

Sob a tutela do PT, a Petrobras teve que desistir de dois projetos de refinarias, no Norte e no Nordeste, e paralisar a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Para o professor Adilson de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), especialista em política energética, a Petrobras deveria se desfazer dos negócios de baixa rentabilidade, como campos em terra e alguns fora do país. ;A companhia precisa preservar sua presença no refino. A distribuição é relevante, mas não é o mais importante. Termelétricas, neste momento, estão rendendo bem;, avaliou.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação