Cuidado com a conta bancária

Cuidado com a conta bancária

Em março, 22% das fraudes praticadas no país foram relacionadas ao setor financeiro

NÍVEA RIBEIRO Especial para o Correio
postado em 17/05/2015 00:00
 (foto: Claudio Reis/Esp.CB/D.A. Press)
(foto: Claudio Reis/Esp.CB/D.A. Press)


A aposentada Maria Lúcia de Sousa, de 60 anos, é uma das inúmeras vítimas de golpes que são aplicados diariamente contra clientes de bancos no Brasil. Ela teve os dados da conta no Banco de Brasília (BRB) roubados e surpreendeu-se ao ver que eles haviam sido utilizados para o pagamento de diversas despesas, em 7 de maio. No total, Maria Lúcia sofreu um rombo de R$ 1,5 mil. ;Tentei acessar minha conta pela internet e ela estava bloqueada. Fiz contato com o banco e ele informou que o bloqueio havia sido feito devido a uma suspeita de fraude, e que era preciso que eu fosse à agência para resolver o problema. Não consegui mais detalhes nem saber como conseguiram meus dados, mas troquei a senha e o número do celular cadastrado para receber o token que libera as operações on-line;, relata.

Após mudar as informações pessoais, Maria Lúcia notou que o celular cadastrado anteriormente estava sem linha. ;Imaginei que alguém havia clonado minha conta do telefone para conseguir usar a do banco. Liguei para a operadora, a Vivo, e descobri que haviam pedido a transferência do meu número para outro aparelho ; isso no mesmo dia em que usaram meu dinheiro;, lembra. Segundo a Vivo, as transferências de titularidade só são realizadas presencialmente nas lojas da operadora, por meio da apresentação de documentos, e o caso de Maria é investigado.

Mesmo tendo conseguido o ressarcimento do valor, na última semana, a aposentada diz que se sente insegura com a situação. ;Registrei a ocorrência na polícia, cancelei linhas, bloqueei o cartão de crédito e o de débito. Durante todo esse tempo, continuo vigiando meu celular e evitando o cartão, porque tenho medo de que continuem usando meus dados;, reclama. O BRB afirmou, em nota, que ;investe em requisitos e procedimentos de segurança para todos os seus clientes; e que ;toda contestação do cliente é apurada minuciosamente, e medidas de segurança são implantadas para proteção do canal de atendimento frente ao crime cibernético;.

Tecnologia

A situação vivida por Maria Lúcia é mais frequente do que se imagina. Das 183 mil tentativas de fraude registradas em março no país, 22% foram relacionadas ao setor bancário, de acordo com estudo da Serasa Experian. Entre os principais golpes identificados estão a emissão de cartões de crédito, a abertura de conta ; nesse caso, o criminoso tem acesso a diversos produtos bancários, além dos cartões, como empréstimos e cheques ; e a criação de empresas apenas para enganar mais consumidores.

Para Júlio Leandro, superintendente do Serasa Consumidor, com o avanço da tecnologia, as quadrilhas têm cada vez mais recursos e inovam para efetuar os golpes. ;Antes, havia muito roubo de documentos físicos. Com essa questão do virtual, a fraude migrou, ficou ainda maior, e os consumidores passaram a ter um nível de exposição mais alto. Além de e-mails falsos, que todos já conhecem, aumentou muito o número de sites fraudulentos. As pessoas ainda são pouco cautelosas, acreditam e se cadastram, mesmo sem conhecer a fonte;, afirma. Leandro alerta que as vítimas costumam ser escolhidas entre pessoas sem histórico de inadimplência. ;São sempre utilizados os documentos de cidadãos honestos, que não têm nada a ver com atividades criminosas, porque eles não chamam a atenção quando o fraudador precisa utilizar os dados;, explica.

Para evitar os golpes, alguns cuidados devem ser observados: ficar atento enquanto vendedores efetuam transações com o cartão de crédito; não criar senhas fáceis de serem descobertas, como data de aniversário; analisar bem as solicitações de cadastro e até mesmo não deixar notas fiscais em locais públicos, pois elas podem conter o número do CPF. ;Quem tem seus documentos roubados ou extraviados corre risco dobrado de que eles sejam usados para fraude. Antes de fornecer seus dados, você precisa ganhar confiança e ver se realmente a pessoa precisa de tudo aquilo que foi solicitado;, recomenda Leandro, do Serasa Consumidor.

Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da associação de consumidores Proteste, acredita que, quando se trata de dados pessoais, a preocupação é benéfica: ;As transações on-line trazem muita facilidade, mas, no mundo virtual, há muitas ferramentas que possibilitam a captura de informações importantes. Procedimentos simples ajudam a evitar esses problemas: antes de tudo, o cliente deve verificar se a mensagem recebida do banco é oficial, e nunca responder com seus dados caso não tenha checado;. Outras dicas da especialista são desconfiar de ligações para atualização cadastral e não acessar as contas bancárias por meio de equipamentos de outras pessoas, tampouco por meio de redes sem fio públicas ou compartilhadas. Se o consumidor suspeitar de que foi vítima de fraude, um boletim de ocorrência deve ser feito em uma delegacia de polícia, e o banco, avisado. Caso comprove o golpe, o cliente prejudicado tem direito a estorno, e a instituição segue com as investigações.

Foi o que fez a universitária Ana Clara Ribeiro, 23 anos, que já foi vítima duas vezes de golpes, mesmo se cercando de cuidados com os dados bancários. Na primeira vez, fizeram compras de R$ 1,4 mil com seu cartão de crédito, em estabelecimentos onde ela nunca havia estado em Brasília. Na segunda, pagaram uma fatura de R$ 150 com a conta de Ana. ;Fui ver o meu extrato e constava o pagamento de uma fatura de telefone do Rio Grande do Sul, no débito. Rapidamente, procurei o banco e avisei que não tinha sido eu. Eles fizeram uma pequena entrevista comigo, questionaram se outra pessoa tinha acesso ao computador e se ele tinha proteção contra vírus. Meu computador sempre foi protegido e eu sou cuidadosa com os dados, mas não descobri como roubaram minhas informações. Pelo menos, consegui o dinheiro de volta em menos de um mês;, lembra.

Conscientização
Como as fraudes oneram os bancos e também o setor de varejo on-line, devido ao prejuízo gerado por estornos e taxas de operação, a importância dada à proteção de dados em transações tem crescido. Omar Jarouche, gerente de Inteligência Estatística da ClearSale, empresa especializada em soluções antifraude, acredita que a tendência é o investimento em um cruzamento de dados mais eficiente. ;Hoje, para se fazer uma compra on-line, bastam os números do cartão, não o plástico. Assim, trabalhamos com tecnologias de dados para conseguir perceber qual é o tipo de compra que aquele cliente faria, quais as transações comuns dele. Se acharmos que há uma chance de fraude, a operação passa para uma análise manual e entramos em contato com a pessoa. A tecnologia tem mais a ver com uso de dados e criação de modelos estatísticos do que com a inovação nos cartões em si.;

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