Dieta do hCG em xeque

Dieta do hCG em xeque

postado em 17/05/2015 00:00
 (foto: Mike Blake/Reuters - 19/10/12)
(foto: Mike Blake/Reuters - 19/10/12)


Preocupadas com o interesse crescente dos pacientes na chamada ;dieta do hCG;, duas importantes associações médicas publicaram, em conjunto, um posicionamento contrário a esse modismo, baseado em um regime hipocalórico e em aplicações do hormônio da gravidez. De acordo com os médicos da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), além de não promover o emagrecimento, o hCG utilizado para esses fins coloca a saúde em risco, com efeitos que vão de trombose a dificuldades para engravidar.

O uso do hormônio em programas de redução de peso não é novo, mas voltou à moda recentemente e com mais força do que nunca. ;Houve um aumento assustador de pessoas que começaram a procurar médicos associados da Sbem e da Abeso, dizendo que ouviram falar nessa dieta e que estão pensando em adotá-la. Um volume realmente muito grande;, conta o endocrinologista Alexandre Hohl, presidente da Sbem. ;Vários médicos, não só endocrinologistas, começaram a passar essa dieta, e o número de dúvidas foi aumentando também.; De acordo com ele, algo semelhante ocorreu nos Estados Unidos no ano passado, estimulando a sociedade de endocrinologia de lá a condenar publicamente o uso do hormônio para emagrecimento, em dezembro.

A endocrinologita Cintia Cercato, presidente da Abeso, conta que, entre as décadas de 1950 e 1970, um médico americano chamado Albert T.M. Simeons publicou alguns estudos propondo esse tratamento. Ele investigava a ação do hCG em uma síndrome metabólica quando notou que pacientes obesos emagreceram. Contudo, a associação foi meramente observacional: Simeons não se aprofundou no estudo de causa e efeito. ;O tratamento virou febre. Por isso, vários institutos começaram a fazer pesquisas bem conduzidas e controladas, comparando o uso de hormônio com placebo. Todas mostraram que o hCG não tem efeito nenhum. São evidências muito consistentes de que ele não funciona para emagrecer;, afirma.

Riscos
Na realidade, pessoas que defendem o sucesso da dieta do hCG emagrecem não por causa do hormônio, mas devido ao corte de calorias. ;A pessoa faz a dieta de 500 calorias diárias e 40 nutrientes importantes deixam de ser absorvidos. Obviamente, ela vai emagrecer, ao custo de ter a restrição nutricional. Toma um hormônio caro e com efeitos adversos. É uma loucura. Todo mundo busca mágica. Ninguém quer fazer o caminho das pedras, que é uma dieta equilibrada associada a exercícios regulares;, constata Alexandre Hohl. Ele lembra que regimes restritivos e de emagrecimento muito rápido geralmente são seguidos por um ganho de peso quase imediato, o chamado efeito sanfona.

O hCG é um hormônio produzido naturalmente apenas durante a gravidez. Ele estimula a secreção de estrógeno e progesterona e inibe uma nova ovulação. Em alguns casos, médicos utilizam o hormônio para o tratamento de condições como a criptorquidia, quando o testículo não desce para a bolsa escrotal. Contudo, utilizado para emagrecimento, pode causar trombose, aumento de mamas nos homens, dor nas mamas, infecção no local da aplicação e alteração da fertilidade. ;O hCG é uma medicação, a população precisa ser alertada de que não é para emagrecimento;, ressalta a endocrinologista Cintia Cercato.

Para o presidente da Sbem, a febre da dieta do hCG pode ser um dos reflexos da proibição, no Brasil, da venda de derivados das anfetaminas, medicamentos que tiram a fome. Outro remédio usado para esse fim, a sibutramina também teve sua prescrição restrita. ;As pessoas acabam sempre procurando muletas para conseguir emagrecer. A mensagem para médicos e pacientes é que não devem fazer uso da dieta do hCG devido à restrição muito grave dos nutrientes e dos riscos de efeitos adversos do hormônio. É ilógico querer emagrecer colocando a saúde em risco;, alerta Hohl. (PO)

"É ilógico querer emagrecer colocando a saúde em risco"

Alexandre Hohl, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia




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