Na boleia das BRs

Na boleia das BRs

O Entorno e parte do DF cresceram às margens das estradas. Agora, colhem os frutos %u2014 bons e ruins %u2014 da dependência

postado em 17/05/2015 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )


As estradas brasileiras transformaram-se em polos de desenvolvimento. Novas cidades surgem cada dia mais próximas às rodovias, crescendo com o movimento de carros e caminhões. Perto do Distrito Federal, o processo de aglomeração urbana torna-se ainda mais intenso. Nos últimos 20 anos, a influência da capital contribuiu para os rumos sociais e econômicos dessas vias, em especial no raio que atinge a região metropolitana. O número de habitantes nas últimas três décadas nos municípios do Entorno localizados à margem das rodovias praticamente quintuplicou, impulsionado pela intensa migração a Brasília. Povoados distantes das cidades sedes ganharam independência na década de 1990, como é o caso de Valparaíso (GO) e Águas Lindas (GO). Outros, como Girassol (GO), aguardam a vez para se emancipar.



Os empreendimentos comerciais aproximam-se da rodovia. Shopping centers, outlets, armazéns e silos, lojas e laboratórios querem aproveitar o movimento que a estrada traz. É o caso dos shoppings de Valparaíso e Águas Lindas, do outlet e da fábrica de cerveja em Alexânia. ;A proximidade com a estrada traz um bom custo-benefício para o empreendedor. Na logística, a milha final, que é o caminho para chegar o insumo e escoar a produção, é o mais caro do frete. Por isso, estar perto da rodovia se torna economicamente atrativo;, analisa Luiz Teixeira, mestre em logística e diretor do Ibmec Brasília.



Gerente de um posto de combustível na BR-060, em Alexânia, Silvio Rezende, 47 anos, conta como o negócio é dependente da rodovia. ;Cerca de 70% do que comercializamos é de clientes que eu nunca mais vou ver;, calcula. Ele conta que, quando a rodovia ficou interditada em dezembro de 2010 por causa de uma cratera na pista, o posto teve queda brusca no lucro. ;E não foi só o posto: Alexânia praticamente travou;, relembra.

Fausto Ribeiro de Farias, 36, foi um dos primeiros empresários a se instalar em Valparaíso, há 15 anos. ;Era minha farmácia, o hotel e o hospital. Hoje, tem comércio para todo lado. E ficar próximo à rodovia está custando cada dia mais caro. Os grandes estão empurrando os pequenos cada vez para dentro (da cidade);, comenta. Segundo Fausto, o problema é que Valparaíso cresce apenas às margens da BR-040. ;A cidade tinha que ter infraestrutura além da BR;, defende.

Nos municípios do Entorno, as estradas viraram a avenida principal das cidades, o que preocupa especialistas. ;A localidade cresce por causa da rodovia e chega uma hora em que a cidade a invade, se apropria dela. Isso é ruim para o tráfego e perigoso para os moradores;, explica Luiz Teixeira, do Ibmec. Moradores de Girassol, povoado de Cocalzinho (GO), há mais de 20 anos, Raimundo Nonato de Araújo, 67, José Ângelo da Silva, 64, e Jorgelim Domingos da Silva, 62, contam que, embora o povoado tenha crescido ao redor da estrada, os benefícios para a população ainda não vieram, como postos de saúde e creche. ;Em 1981, quando eu cheguei, dava para contar na mão os comércios. Agora não: veio o povo de Brasília morar aqui e teve que ter lojas para todo mundo;, comenta José Ângelo.


Para Paulo César Marques, professor da UnB e especialista em trânsito, é natural o crescimento das cidades estar relacionado aos meios de transporte. ;Os centros populacionais surgem perto de margens dos rios, de estações ferroviárias. No Brasil, como o transporte rodoviário é forte, é comum os municípios crescerem nesses locais.; Porém, o especialista ressalta que, no caso das rodovias, é preciso pensar em políticas públicas para evitar que a rodovia se torne a principal via urbana e traga problemas, como atropelamentos e tráfego, de modo a atrapalhar a função expressa da rodovia. ;Quem passa pelas rodovias quer a velocidade de uma via expressa, não tem a paciência de um trânsito, por isso acontecem os acidentes e os atropelamentos.;

Marques recomenda que as cidades construam vias marginais e façam o acesso por meio de alças ou anéis viários. Para o especialista, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) e os órgãos de rodagem estaduais devem atuar mais diretamente para evitar a aglomeração à beira da estrada. Por meio de nota, o Dnit afirmou que as faixas de domínio das rodovias sob responsabilidade do órgão no DF são vistoriadas regularmente. Segundo a autarquia, quiosques, vendedores ambulantes e demais atividades executadas dentro da área são notificados. Quando surge resistência, o órgão recorre à Justiça para reintegração de posse.

Devidamente identificadas
Na matemática, ter um zero à esquerda significa que não há alteração de valor, mas o mesmo conceito não se estende a todas as situações. Quando se trata de rodovia, ele torna-se símbolo de identidade. Todas as estradas que se originam no Distrito Federal carregam na nomenclatura um zero na frente. As BRs 010, 020, 040, 060, 070 e 080 têm em comum a origem na capital do país. Já as vias longitudinais (Norte-Sul) começam com o número 1; as transversais (Leste-Oeste) têm início com o 2; e as diagonais (Noroeste-Sudeste e Nordeste-Sudeste) possui o
3 para identificá-las.

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