Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 17/05/2015 00:00
Coxão duro
O gerente do mercado que denunciou à polícia o eletricista Mário Ferreira Lima não participa da comoção que envolveu o caso do pai que foi flagrado furtando carne para servir ao filho. ;Se ele quisesse só uma carne para ele comer, ele ia pedir 1kg de carne, mas pedir duas peças de carne, de uma das melhores carnes que tem [coxão duro]? Eu acho que ele já vinha fazendo isso outras vezes. Não acho que era só por necessidade;, disse Ednaldo Belém Silva, ao site de notícias G1.

Seguindo o raciocínio do gerente, Mário deveria ter escolhido 1kg de costela ou, no máximo, meio quilo de músculo. Patinho já seria um exagero. Filé mignon, um escárnio. Silva suspeita que o eletricista tenha praticado outros furtos semelhantes, o que o leva a concluir que não estava apenas movido pela necessidade. Ainda acompanhando o argumento do comerciário, a fome bate só uma vez. Ao Correio, ele disse que casos como o do eletricista são ;recorrentes;. Ou seja, o buraco no estômago move montanhas de ilegalidades.

Mário que se prepare. Passada a onda de compaixão que moveu Brasília e o país, cessadas as entrevistas aos programas de tevê, interrompidas as doações de alimentos, os abraços no meio da rua, provavelmente até os selfies que devem estar pipocando na rede, passado o efeito-celebridade, o eletricista poderá ter de enfrentar legalistas, amargurados, cínicos, desconfiados e defensores em geral do cardápio de costela de boi, bucho, muxibas para os pobres.

Tivesse ficado contido no território entre a delegacia e a casa de Mário, o gesto solidário dos policiais teria tido efeito mais duradouro. A exposição midiática é devoradora, provoca inveja e, desligados os holofotes, o eletricista voltará a ficar cara a cara com a indiferença e a impiedade humanas. As mesmas que o levaram a furtar os 7kg de coxão duro. Indiferenças próprias da selva urbana.

;Fiquei muito surpresa com o fato, uma situação dessas, aqui ao meu lado, nunca imaginei;, declarou uma vizinha de Mário ao Correio. E quem haverá de saber o que se passa do lado de dentro da porta da casa do vizinho de parede? A não ser que ele diga, grite ou desmaie, como aconteceu com o eletricista.

Se eu pudesse, diria a Mário: volte, rapidamente para a sua vida. Agradeça os anjos que pousaram no seu destino, curta o momentâneo sucesso, deleite-se com a próxima viagem de avião para o próximo programa de tevê, aproveite o frigobar do hotel, o café da manhã, tome um banho de banheira, mas volte para si mesmo, para seu filho, para o seu mundo como ele era antes. Serão poucos os frutos duradouros da compaixão ;; o emprego oferecido por uma empresa em Valparaíso é o mais efetivo deles.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação