Herança dos gramados

Herança dos gramados

Antes de ganhar popularidade no país, grandes clubes de futebol nasceram do remo. Hoje, em caminho inverso, eles carregam torcida para outras modalidades olímpicas. Situação, no entanto, não é animadora: nos esportes individuais, ainda falta espaço

Maíra Nunes
postado em 17/05/2015 00:00
 (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press-12/4/15)
(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press-12/4/15)

Os 12 maiores clubes de futebol do país arrastam multidões não apenas aos estádios, mas também para frente da televisão, para dentro das lojas temáticas ; e para complexos esportivos de outras modalidades. É que o esporte mais popular do mundo repete na atualidade o que viveu na pele quando ainda não havia experimentado a fama. Nos fins do século 19, era o remo que dominava o cenário esportivo do país, principalmente no Rio de Janeiro.

O futebol começou a dividir a preferência popular nas primeiras décadas do século passado. Então, os clube de regatas da época se expandiram para também contemplar equipes de futebol. Prova da herança está no escudo de alguns times, especialmente os cariocas, que levam até hoje o ;clube de regatas; bordado na camisa. ;Hoje, o que acontece é uma modelagem reversa;, aponta o coordenador do Laboratório de Pesquisa sobre Gestão do Esporte (Gesporte), Paulo Henrique Azevêdo.

Em um dos maiores clássicos do basquete nacional, quando o Flamengo vem jogar na capital contra o UniCeub/BRB, a torcida rubro-negra enche as arquibancadas do Ginásio Nilson Nelson. Boa parte dos flamenguistas que marcam presença na arena são como Igor Soares, 25 anos. Desde 2010, o estudante de economia viu a paixão pelo Flamengo extrapolar os limites dos gramados e acabou fisgado pelos jogos de basquete, nos quais a equipe da Gávea levantou três vezes a taça do NBB.

;Acaba que se torna um clube de coração. Por isso, torço para meu time em qualquer competição, seja qual for o esporte;, relata Igor. Segundo o professor Felippe Cardoso, do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Futebol da Universidade Federal de Viçosa (UFV) , atitudes como essa se devem ao fato de que ;torcedores não são meros ;compradores; do produto futebol, mas sim da marca do clube;.

Dessa forma, ter equipes em outras modalidades pode resultar em uma diversidade mercadológica. ;Essa prática visa aumentar o número de sócios e de torcedores para consumir os produtos do clube;, explica Paulo Henrique Azevêdo. Para o especialista em gestão esportiva, trata-se de uma estratégia de complementação. ;O foco é ganhar títulos, trazer torcedor e mostrar o crescimento do lado empresarial do clube;, completa.

Instabilidade
Do outro lado, as demais modalidades aproveitam a oportunidade de se vincular a uma marca com mais visibilidade de mídia e maior potencial financeiro. Abrir as portas para parceria com clubes de futebol é também a chance de atrair patrocínio e público para as equipes e competições.

O atual tricampeão da Superliga Masculina de Vôlei é prova disso, fruto da parceria entre o Cruzeiro e o grupo empresarial Sada desde 2009. A exemplo do time mineiro, o São Paulo anunciou que disputará a próxima temporada. Para poder entrar direto na elite, o tricolor fechou uma parceria com o Taubaté, semifinalista da última Superliga. E ainda haverá um terceiro elemento caso vingue a negociação do Flamengo com o time da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Mais difícil que montar um time é conseguir mantê-lo vivo por um período prolongado. Essa instabilidade que não melhorou o panorama das modalidades olímpicas nem nos anos que antecedem as Olimpíadas sediadas no Rio, em 2016. Botafogo, Fluminense, Vasco passaram pelo vôlei e ainda não voltaram; e o basquete teve a participação do Atlético-MG, do Corinthians e do São Paulo, mas hoje apenas Flamengo e Palmeiras carregam a força do futebol para o NBB.

;Há a dificuldade de conseguir patrocínio nas outras modalidades, porque as atenções são mais voltadas para o futebol. Mas depende muito do marketing que vem do próprio futebol, porque o marketing realizado para todos os esportes é o mesmo, só o patrocínio de cada equipe é separado;, explica o diretor de Basquete do Palmeiras, Alejandro Audinino.

PRESENTE?
As modalidades olímpicas com investimento dos 12 grandes clubes de futebol


Atlético-MG
Não tem

Botafogo
Natação, polo aquático, remo e vôlei de praia

Corinthians
Basquete, handebol, judô, nado sincronizado, natação, remo, rúgbi, tênis, tênis de mesa e vôlei

Cruzeiro
Atletismo e vôlei

Flamengo
Basquete, natação, nado sincronizado, polo aquático, ginástica artística, judô, remo e vôlei

Fluminense
Basquete, ginástica artística, judô, nado sincronizado, natação, saltos ornamentais, tiro esportivo, tênis e tênis de mesa

Grêmio
Não tem

Internacional
Tae kwon do

Palmeiras
Atletismo, basquete, boxe, judô, levantamento de peso, tae kwon do, tiro com arco, tênis e tênis de mesa

Santos
Vôlei e tae kwon do

São Paulo
Atletismo, basquete, ginástica, handebol, tênis e vôlei

Vasco
Atletismo, basquete, natação e remo




Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação