O glúten nosso de cada dia

O glúten nosso de cada dia

por Paulo Pestana papestana@uol.com.br
postado em 17/05/2015 00:00




Depois de certa idade, fazer aniversário é uma contagem regressiva. Não fôssemos otimistas, teríamos que fazer, a cada ano, uma antecipação do inexorável velório, acendendo velas ao invés de assoprá-las ; e isso, convenhamos, não merece comemoração alguma. O mórbido pensamento sempre vem à cabeça ao ler o cada vez mais farto noticiário sobre nutrição; é só abrir o jornal: vamos ver o que está fazendo mal esta semana.

Anos atrás a gente até ouvia dizer de um bebê ou outro que só podia tomar leite de cabra; hoje a intolerância à lactose é uma coqueluche ; doença que era conhecida pelo matuto como tosse comprida e também, no meu tempo de menino, sinônimo de moda do momento. E devemos evitar frituras, carne vermelha, alimentos baseados em soja, queijos, doces e, dependendo da pesquisa que se estiver lendo, até arroz e feijão.

Circula pela internet um vídeo de um senhor defendendo a integridade e a honestidade do aviltado ovo. De acordo com o palestrante, é o segundo alimento mais completo, atrás apenas do leite materno. Diz ele que naquela frágil embalagem há tudo o que precisamos para viver. E mais: é anti-inflamatório, diminui índices de insulina e até emagrece, porque aumenta a quantidade do hormônio conhecido como diponectina.

Mas o que está tirando o sono ultimamente é a perseguição ao pão. E ao macarrão. E principalmente à cerveja. Há alguns anos começaram a aumentar as letrinhas nas embalagens com a informação de que o alimento contém ou não glúten. Este é o nome do vilão do momento, encontrado em grãos como trigo, centeio, cevada e aveia ; portanto, na cerveja. Até aí, tudo certo; quem pode, pode; quem não pode, não pode.

Mas nutricionistas estão recomendando que mesmo quem não tenha manifestado reação ao glúten, evite a proteína. Alertam para o fato de que dois milhões de brasileiros sofrem da doença celíaca, que provoca diarreia crônica, dores, desnutrição e vômitos; dizem que outros milhões têm níveis diferentes de intolerância ainda que não saibam.

E o que vamos dizer na hora da reza quando pedimos o pão nosso de cada dia? Temos que agradecer ao fabricante de cerveja por nos fazer o favor de substituir quase a metade da cevada por milho, mesmo sem avisar nada no rótulo? Como faço para reclamar da minha mãe por ter-me obrigado a comer toneladas de aveia Quaker quando menino? Não tem alguma coisa estranha quando tanta gente começa a sentir o mesmo sintoma ao comer um alimento que é base da humanidade há milênios?

Desde os romanos, pão é a tradução de comida; mas não vejo problema em trocá-lo por uma tapioca (embora as tapiocas industrializadas contenham farinha de trigo e, portanto, glúten). Também não vou sentir falta de pizza ou de macarrão. Mas eu me recuso a tomar cerveja de chocolate ou de banana ; não me parece coisa de gente civilizada. Vou continuar me arriscando, mesmo que tenha de ir mais vezes ao banheiro.

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