Ecos de Santa Maria

Ecos de Santa Maria

Marcelo Agner marceloagner.df@dabr.com.br

postado em 18/05/2015 00:00

A história do roubo de carne num mercado de Santa Maria não é exatamente aquela contada pelo desempregado Mário Lima. Depois da comoção do país com o caso, descobriu-se que o eletricista tinha outras três ocorrências na polícia por furtos semelhantes. Ele nega os crimes. Mas é compreensível que muitos de nós fiquemos decepcionados. Mesmo assim, esse triste episódio da realidade brasileira deixará lembranças, lições e temas a serem debatidos.

O fato mais positivo, sem dúvida, foi a solidariedade dos policiais de Santa Maria. Nós nos acostumamos a enxergar nesses profissionais pessoas insensíveis, principalmente por tratarem diariamente com criminosos e espertalhões de toda espécie. Os agentes entenderam o drama de Mário Lima, se comoveram com o homem que furtou carne para alimentar o filho e o ajudaram. Esse gesto desencadeou uma campanha de doações para o eletricista. Até oferta de emprego ele recebeu. De alguma forma, mesmo em momentos tão difíceis do país, o brasileiro mostra benevolência e vontade de colaborar.

O caso expõe também a face da miséria no Brasil, escondida debaixo do tapete nos últimos anos pelas estatísticas oficiais e pela propaganda do crescimento da economia. O desemprego (ou o subemprego) nunca deixou de ser uma ameaça às camadas mais pobres da população. Mário Lima estava sem trabalho formal havia pelo menos dois anos e sustentava a família com o dinheiro de bicos. A crise econômica, a inflação e o fechamento dos postos de trabalho têm reflexo imediato nos mais pobres. A Bolsa Família, um importante instrumento social, não é capaz de garantir sozinha a dignidade dessa gente. Mário recebe R$ 70, valor insuficiente para alimentar dignamente a ele e ao filho.

Outro capítulo dessa história precisa ser debatido com mais profundidade. O Estado tem presença pífia na vida do desempregado. Doente, a mulher dele teve que procurar ajuda em outra cidade para continuar o tratamento médico. A Previdência e a saúde pública estão sobrecarregadas. O filho de Mário, aos 12 anos, vai à escola, mas recebe muito pouco do sistema educacional. Talvez, se estivesse no ensino integral, com alimentação garantida e mais assistência, não preocuparia tanto o pai.

Mário Lima será punido por ter furtado carne do mercadinho. É um capítulo da vida que ele jamais vai esquecer. E o caso também nos deixa marcas e a certeza de que precisamos ter um novo olhar sobre o país, mais humano, realista e exigente.



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