Reino Unido Oposição no divã

Reino Unido Oposição no divã

Batidos nas urnas pelo premiê, trabalhistas buscam novo líder. Nacionalistas escoceses questionam o papel deles na política britânica

» GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 18/05/2015 00:00
 (foto: Oli Scarff/AFP)
(foto: Oli Scarff/AFP)


Passadas as eleições parlamentares, com a surpreendente vitória do Partido Conservador e do primeiro-ministro David Cameron, a oposição britânica tenta se recompor e definir rumos para os próximos anos. O Partido Trabalhista, segunda maior força na Câmara dos Comuns, articula-se para eleger nos próximos meses um novo líder, após a renúncia de Ed Miliband. Em clima oposto, o Partido Nacional Escocês colhe os louros por ter ;varrido; o trabalhismo da região e se firmado como terceira maior bancada parlamentar, em meio a questionamentos sobre o lugar que pode ser ocupado, no cenário do Reino Unido, uma legenda comprometida com o anseio pela independência da região.

Miliband deixou o comando do trabalhismo logo após o anúncio de um resultado decepcionante para o partido, que sonhava retornar ao governo. Contrariando as expectativas de uma disputa acirrada, os conservadores obtiveram 331 cadeiras, 24 a mais do que na legislatura anterior. Os trabalhistas perderam 26 assentos e ficaram com 232. Apesar do balde de água fria, as conversas para recompor a liderança começaram dias após a derrota.

A entrada no páreo de Chuka Umunna, 36 anos, chegou a ser recebida com entusiasmo, mas o jovem desistiu da disputa na semana passada. De origem queniana, ele foi comparado ao presidente americano, Barack Obama. Umunna, porém, alegou que a pressão gerada pelo ensaio de candidatura não foi ;uma experiência confortável;, e concluiu que era cedo demais para concorrer à liderança do partido. Embora menos badalados, nomes como os do ex-ministro da Saúde Andy Burnham e da ex-ministra do Trabalho Yvette Cooper figuram na lista de favoritos. O ex-secretário de Cultura Ben Bradshaw e as deputadas Liz Kendall e Mary Creagh também são cotados.

Alexandra Kelso, professora de ciência política da Universidade de Southampton, observa, porém, que as principais opções dos trabalhistas são ligadas à velha guarda do partido e podem ser pouco úteis ao projeto de recuperação da legenda. ;O debate tem sido sobre escolher alguém com experiência ou alguém genuinamente da nova geração. Chuka Umunna seria essa nova cara;, avalia.

Segundo a analista, os trabalhistas falharam em envolver os eleitores com suas ideias e motivá-los para a votação. Para ela, o desempenho da legenda como principal força de oposição no Reino Unido dependerá da definição do significado da renovação partidária. ;Isso não deve vir da cúpula. Deve ser desenvolvido, significativamente, pelo engajamento mais amplo de pessoas que podem ou não votar por eles;, pondera.

Kelso atribui a essa capacidade o sucesso do Partido Nacional Escocês (SNP, em inglês), que ampliou sua bancada de seis para 56 deputados. ;O SNP tem sido formidável nesse sentido, pois construiu uma notável organização com bases populares. Há muita discussão e debates significativos entre as pessoas, e não um processo conduzido por gente de dentro da estrutura partidária.;

Protagonismo
A legenda escocesa é liderada por Nicola Sturgeon, que chefia o governo regional e é favorável a um novo referendo sobre a separação do Reino Unido. Com essa plataforma, o SNP só não saiu vencedor em três distritos eleitorais do seu território. Diante do desempenho sofrível dos trabalhistas e da súbita ascensão à liderança da terceira maior força política em nível nacional, a líder já define o SNP como ;o principal opositor; ao governo de Cameron.

Embora os trabalhistas mantenham a posição de segundo maior partido do Reino Unido, Kelso considera preocupante que o terceiro lugar caiba agora a uma legenda cujas preocupações são regionais. Ela vê ;uma ameaça séria à condução da política britânica; a derrota do Partido Liberal Democrata, que até a eleição integrava o governo de coalizão chefiado por Cameron, mas viu sua bancada de 56 deputados ser reduzida a oito ; e disse adeus ao líder Nick Clegg, até então vice-premiê. ;Temos um problema em torno de como as pessoas vão expressar visões dissidentes. Será difícil para os que não querem votar em conservadores nem trabalhistas: eles sentem que não terão mais escolha diante da derrota dos liberal-democratas.;

Será difícil para os que não querem votar em conservadores nem trabalhistas: eles sentem que não terão mais escolha;
Alexandra Kelso,
professora de ciência política da Universidade de Southampton

Sem oponentes
Depois de recuar da decisão de renunciar à liderança do Partido Independência do Reino Unido (Ukip), anunciada na noite da eleição, Nigel Farage fez um apelo a quem quer que discorde de suas ideias para que dispute com ele o comando da legenda. ;Duas ou três pessoas precisam se decidir. Seu futuro está com o Ukip ou não?;, questionou. Apesar de ter crescido nas eleições para o Parlamento Europeu, o Ukip conquistou apenas uma cadeira na Câmara dos Comuns. A legenda defende políticas de amti-imigração e a saída do Reino Unido da União Europeia.



Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação