Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 18/05/2015 00:00
Calamidade cultural 2
Acabei de ler a excelente biografia JK ;; O artista do impossível, de Claudio Bojunga, e um detalhe me chamou a atenção. A certa altura, o autor afirma que Juscelino pegou a prefeitura de Belo Horizonte com um enorme rombo no orçamento, quase todo comprometido com o pagamento da folha salarial. Infelizmente, Bojunga não explica como JK saiu dessa sinuca, mas o fato é que ele bateu recordes de modernização urbana em termos de investimentos em educação, saneamento básico, industrialização e atividades culturais. Juscelino criou uma escola de belas artes e entregou ao mestre Guinnard.

JK deu uma tremenda bronca em Oscar Niemeyer ao receber a primeira versão do projeto para o Palácio da Alvorada: ;Conquanto fosse uma obra-prima de concepção artística, o edifício não refletia, no seu conjunto, o que eu, de fato, desejava;, comentou JK. ;Disse-lhe, então, com a franqueza permitida pela amizade: ;O que quero, Niemeyer, é um palácio que, daqui a 100 anos, ainda seja admirado;;.

Niemeyer respondeu à provocação com um projeto de um edifício que era, nas palavras de JK, ;uma revelação;, pela síntese de imponência, grandiosidade, leveza e lirismo. JK sempre insistiu que não queria uma capital provinciana; queria uma cidade que fosse referência para o Brasil e para o mundo.

Nos tempos em que trabalhei no caderno Turismo do Correio, tive a oportunidade de conhecer a política cultural de vários estados brasileiros. Em São Paulo, uma estação ferroviária desativada virou o Museu Virtual da Língua Portuguesa e um presídio se transmutou em espaço para oficinas de formação artística; no Rio de Janeiro, prédios abandonados foram transformados em centros culturais; no Recife, antigos armazéns foram revitalizados como núcleos pulsantes de cultura.

Enquanto isso, Brasília foi vítima, nas últimas três décadas, de uma ação premeditada dos governantes no sentido do desinvestimento, da desinstitucionalização e do desaparelhamento das instituições. Prédios tombados como patrimônio da humanidade foram abandonados e reduzidos a pontos de tráfico do crack. O Espaço Renato Russo, da 508 Sul, tradicional espaço de formação cultural, fechou as portas.

O saldo de tantos desacontecimentos aparentemente desimportantes é a mediocrização cultural da cidade. Brasília, que já foi referência nacional em tantas coisas, se viu reduzida à condição de casa da Mãe Joana para todas as armações limitadas. Basta lembrar que um dos governos recentes contratou uma banda de axé music para ser embaixadora de Brasília, claro, a preços superfaturados.

São Paulo está inaugurando um Clube do Choro inspirado no de Brasília, desenhado por Reco do Bandolim. Mas e a Escola de Música de Brasília, o Teatro Dulcina e o Espaço Renato Russo da 508 Sul? Uma cidade artificial, que nasceu do nada, precisa, dramaticamente, de instituições para funcionar.

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