A cultura negra como referência

A cultura negra como referência

Livros de Nei Lopes, PJ Pereira e Claudio Fragata tratam de questões como racismo, cultura, religiosidade e resistência negra em diversos estilos

» Maíra de Deus Brito
postado em 18/05/2015 00:00
 (foto: Bruno Veiga/Divulgação)
(foto: Bruno Veiga/Divulgação)


O Rio de Janeiro da década de 1950 de Nei Lopes não é aquele da bossa nova nas praias de Copacabana e de Ipanema. No livro mais recente, Rio Negro, 50, o escritor e sambista vai além desse cenário e apresenta ao leitor o cotidiano de intelectuais, artistas e jogadores de futebol, majoritariamente negros, nos bares do centro da então capital federal. O romance, que mistura realidade e ficção, mostra esses personagens debatendo sobre acontecimentos da época.


A ascensão da Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura e do Teatro Experimental do Negro; a fundação do primeiro clube social da classe média negra carioca (Renascença Clube) e a assinatura da Lei Afonso Arinos eram alguns assuntos das mesas do Café e Bar Rio Negro. Porém, a pauta mais comentada foi o assassinato de um jovem negro, confundido com Bigode, lateral da Seleção Brasileira derrotada pelo Uruguai na Copa do Mundo de 1950.


Infelizmente, mais de seis décadas depois, algumas questões do livro continuam atuais, como os problemas da falta d;água, a especulação imobiliária e a repressão ao candomblé. ;A grande diferença é que as práticas de discriminação explícita são hoje tipificadas como crime. Então, na hora da ofensa, o racismo faz pensar um pouquinho antes de se manifestar. Além disso, hoje existe em vigor um Estatuto da Igualdade Racial, mesmo que esvaziado e enfraquecido em seus propósitos iniciais;, diz Nei Lopes sobre as semelhanças do cenário de exclusão dos anos 1950 com os dias de hoje.


Na obra, Nei também observa e critica a profissionalização das escolas de samba. ;O samba, hoje, já não ameaça nem mete medo em ninguém. Já foi convenientemente desafricanizado ; tanto que já tem até uma vertente sofisticada, de elite, batizada como ;afro-samba;;, dispara. ;A religiosidade, sim, ainda merece algum respeito; mesmo porque a semente do neopentecostalismo moderno surgiu com gente egressa da ;macumba;. Mas os verdadeiros detentores dos saberes herdados da tradição africana, estes já se foram ou estão desaparecendo;.
Protagonistas

Rio Negro, 50 é uma obra-prima por mostrar personagens negros como protagonistas da história e da cultura do Brasil e por relembrar a consolidação do movimento negro no país. O livro encerra uma trilogia ;involuntária;, que retratou três momentos importantes da história afro-brasileira. ;Mandingas da mulata velha aborda o período do estabelecimento da comunidade baiana no Rio, que vai da virada do século até o início da década de 1930. E A lua triste descamba engloba do surgimento das escolas de samba à morte de Paulo da Portela (décadas de 1920 a 1940);, relembra Nei.


Depois de recordar a década do protagonismo negro no Rio, o escritor carioca pretende voltar aos anos 1920 e 1930 para discutir a polemica questão da mestiçagem no Brasil e nos EUA. ;Sem pensar em nenhuma ;quatrilogia;;, avisa.

Três perguntas / Nei Lopes

Um rapaz negro é espancado logo no início do livro. Em 2012, 77% dos 30 mil jovens entre 15 a 29 anos assassinados no Brasil eram negros (dados da Anistia Internacional). O Brasil reage a esses
números de forma diferente do que nos EUA. Como o senhor vê as manifestações de Fergunson e Baltimore?
Nos EUA, a consciência nacional sobre essa questão vem de muito longe, do século 19, pelo menos. Nasceu no seio de um país que é independente desde o século 18; que é a maior potência mundial, tem uma classe média negra muito bem estruturada e já elegeu um presidente negro (embora não descendente de escravos). Os EUA são uma nação em que os números de sua demografia são inequívocos; na qual os segmentos populacionais são claramente identificados por suas origens e não pela cor da pele, dos olhos ou o tipo de seus cabelos. Já, no Brasil, os milhares de jovens que morrem violentamente são, em geral, apenas vistos como números das estatísticas e quase nunca como vítimas de um problema social que nasceu com o trafico de escravos, há mais de 400 anos.

Em um momento do livro, os frequentadores do Café Rio Negro reclamam de piadas racistas veiculadas pela Rádio Nacional. Recentemente, uma peça foi cancelada no espaço Itaú Cultural (SP) por causa do uso da blackface. O senhor acompanhou o caso? Acredita que existam espaços em que a técnica é possível?
Não li sobre o caso. Mas entendo que o ;blackface; só cabe mesmo se o texto exigir tal tipo de caricatura. As escolas de teatro e os projetos comunitários têm revelado atores e atrizes pretos, negros e mulatos de talento e com grandes possibilidades. Na Europa renascentista, a presença negra era grande ; tanto que Otelo é o ;mouro de Veneza;; e negros africanos foram também personagens, embora secundários, na antiguidade greco-romana. Nos EUA, muitos elencos de montagens épicas já incluem negros, enquanto que, no Brasil, isso, se feito, causaria estranheza. Para mim, um bom ator negro numa montagem clássica (sem a cara pintada de branco), isso sim, seria de fato uma ação cultural descolonizada e desracializadora.

O senhor é bacharel em Direito e Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Direito, um espaço maioritariamente branco até hoje. Como avalia as cotas raciais nas universidades?


Muita gente sabe que o Estado brasileiro, na Primeira República, criou e implementou políticas no sentido da extinção das marcas da presença africana na população nacional. E até hoje muita gente ;boa; ainda questiona o direito dos afrodescendentes a uma identidade específica, ao mesmo tempo que enaltece as expressões culturais de outros segmentos. Enquanto persistir na sociedade brasileira essa falta de sensibilidade têm-se que levar em conta as políticas de inclusão por meio de ações afirmativas até as últimas conseqüências. Não só nas universidades como em todos os espaços de representação: na publicidade, na dramaturgia televisiva, na literatura, na política. Quando a sociedade brasileira já estiver curada desse mal de nascença e já for natural e verdadeiramente representativa a presença do povo negro em todos os setores da vida nacional. Aí, sim, nada disso será mais necessário.

Rio Negro, 50
Livro de Nei Lopes. Editora Record, 288 páginas. Preço médio: R$ 35.

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