Chefe da máfia é preso no Recife

Chefe da máfia é preso no Recife

Criminoso, condenado a prisão perpétua por 26 homicídios na Itália, estava foragido desde 1984. Entrou no Brasil dois anos depois, onde vivia com o nome de Francisco de Castro Visconti. Aqui, ele casou-se e teve dois filhos

Marcella Fernandes
postado em 27/05/2015 00:00
 (foto: Polícia Federal)
(foto: Polícia Federal)


APolícia Federal prendeu, em ação conjunta com a Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) e a Polícia Italiana, o mafioso italiano Pasquale Scotti, de 56 anos, membro da organização criminosa Camorra Napolitana. A prisão foi feita na manhã de ontem, no Recife, cidade onde se estabeleceu após entrar em território brasileiro, em 1986. A ação é considerada umas das prisões mais importantes dos últimos anos pela Polícia Internacional no Brasil.

Scotti foi condenado pela Justiça de seu país à prisão perpétua, por 26 homicídios, além de crimes de extorsão e resistência, cometidos entre 1980 e 1983. De acordo com a PF, Scotti é chefe da máfia e estava foragido desde 1984, ano em que escapou do hospital onde estava custodiado em seu país de origem. Os integrantes da máfia liderada pelo italiano usavam armas de fogo, intimidação e ameaças. No Brasil, o mafioso usava o nome Francisco de Castro Visconti, se casou e teve dois filhos. No momento em que foi preso, ele disse que a família brasileira não sabia de sua identidade real.

Scotti foi identificado por meio de exames de impressão digital. A comparação possibilitou à Interpol no Brasil saber que o foragido utilizava falsa identidade no país, onde possuía cadastro de pessoa física (CPF) e título de eleitor obtidos ilegalmente. Ele se apresentava como empresário na cidade do Recife e levava uma vida modesta. Dirigia uma empresa de fogos de artifício e estava ligado a empreendimentos imobiliários, segundo a PF. Agora, a polícia brasileira vai investigar se os empreendimentos eram usados para lavar dinheiro de organizações italianas.

A Interpol no Brasil chegou à identidade do ex-chefe do grupo armado após receber informações da polícia italiana, que teria levantado a pista em uma outra investigação de crimes na Itália. Policiais da Intepol pediram a prisão dele ao Supremo Tribunal Federal (STF) na sexta-feira. O pedido foi autorizado no sábado. Scotti foi levado à sede da Superintendência da PF no Recife.

Extradição
Quanto à extradição, cabe ao Ministério da Justiça e ao Itamaraty intermediar o contato entre os governos brasileiro e italiano. ;As autoridades italianas serão notificadas da prisão, quando então se inicia o prazo de 40 dias para que o governo da Itália apresente os documentos necessários para o pedido de extradição do preso. Esse pedido será julgado pelo Supremo Tribunal Federal e, dependendo da decisão, ele poderá ser entregue;, afirmou o secretário nacional de Justiça do Ministério da Justiça, Beto Vasconcelos. Entre 2010 e 2014, o STF julgou 17 pedidos de extradição para a Itália. Desses, nove foram concedidos, cinco concedidos parcialmente, dois foram negados e em um caso houve desitência por parte do país europeu.

A pasta não comentou se a situação do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado no Mensalão, pode afetar o destino de Scotti. Colegiado de juízes do Tribunal Administrativo de Lacio, na Itália, julgam o caso em 3 de junho. Dependendo do resultado, ele pode ser extraditado em seguida. Pizzolato foi condenado a 12 anos e sete meses de prisão e multa de R$ 1,3 milhão por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro na ação penal do mensalão. Ele fugiu para a Itália em 2013, assim que o mandado de prisão foi expedido. Localizado em fevereiro de 2014, foi preso na cidade de Maranello, por porte de documento falso.

17
Número de pedidos de extradição para a Itália julgados pelo STF entre 2010 e 2014

Memória

Conexão
italiana


Em 1984, o Brasil extraditou o mafioso italiano Tommaso Buscetta, personagem fundamental para desvendar os segredos da máfia italiana na operação Mãos Limpas, investigação judicial que visava esclarecer casos de corrupção no governo italiano. Deflagrada após testemunhos do dissidente da KGB Vladimir Bukovski e de Buscetta, a operação descobriu licitações irregulares e o uso do poder público em benefício particular e de partidos políticos italianos. Comprovou, ainda, que empresários pagavam propinas a parlamentares para vencer licitações de construção de ferrovias, auto-estradas, prédios públicos e estádios. Na tentativa de calar as testemunhas, a máfia siciliana cometeu diversos assassinatos, incluindo os dos juízes Paolo Borsellino e Giovanni Falcone. A operação investigou 6.059 pessoas, dentre eles 872 empresários, 1.978 administradores e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros. Foram expedidos 2.993 mandados de prisão.



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