Despesa de brasileiro no exterior cai 30% em abril

Despesa de brasileiro no exterior cai 30% em abril

Valorização do dólar e incertezas sobre emprego e renda reduzem viagens e gastos fora do país, que fecharam no mês passado em US$ 1,6 bilhão. Deficit em transações correntes e os investimentos diretos recuaram para US$ 6,9 bilhões e US$ 86 bilhões

SIMONE KAFRUNI ALESSANDRA AZEVEDO - Especial para o Correio
postado em 27/05/2015 00:00

Os brasileiros viajaram menos para o exterior em abril e foram bem mais comedidos nos gastos fora do país, resultado da valorização cambial e da economia cambaleante do Brasil, com maior temor em relação ao mercado de trabalho e rendimentos sem ganhos reais. O valor gasto em viagens ao exterior em abril deste ano, de US$ 1,6 bilhão, foi 30% menor do que no mesmo mês do ano passado, quando somou US$ 2,3 bilhões. De janeiro a abril, o recuo atingiu 16% em relação ao primeiro quadrimestre de 2014, passando de US$ 8,2 bilhões para US$ 6,9 bilhões. Os dados do setor externo foram divulgados ontem pelo Banco Central (BC).

A atividade econômica mais fraca e a disparada do dólar também garantiram um deficit menor nas transações correntes em abril. O saldo negativo foi de US$ 6,9 bilhões no mês passado e de US$ 100,2 bilhões no acumulado em 12 meses. Em abril de 2014, o deficit havia sido de US$ 9,2 bilhões, fechando o ano passado em quase US$ 105 bilhões. Com a economia em recessão e o Produto Interno Bruto encolhendo, em percentual do PIB não houve muita alteração e o saldo negativo corresponde a 4,53% de toda a geração de riquezas do país.

Apesar de o recuo parecer positivo, os investimentos estrangeiros diretos ; aporte de dólares no país que compensam o deficit ; também vêm caindo mês a mês, de quase US$ 97 bilhões em dezembro de 2014 para US$ 86 bilhões em abril. Isso faz a necessidade de financiamento externo aumentar. Em dezembro do ano passado, era de cerca de US$ 8 bilhões e em abril subiu para US$ 14 bilhões.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel, explicou que a tendência é o deficit continuar caindo até o fim do ano. ;A expectativa para maio é de nova queda, para US$ 5,4 bilhões ante US$ 7,9 bilhões no mesmo mês do ano passado. Nossa projeção é fechar 2015 com saldo negativo de US$ 84 bilhões;, disse. Maciel afirmou que a balança comercial está ajudando. ;Faltando apenas cinco dias para fechar maio, o superavit (exportações menos importações) é de US$ 1,9 bilhões ante saldo positivo de US$ 700 milhões em 2014;, comparou. Ainda assim, de janeiro a abril, o saldo da balança comercial foi negativo em US$ 5,8 bilhões.

Outro fator que contribuiu para o resultado decrescente do deficit foi a menor remessa de lucros e rendas. ;Isso é reflexo da taxa de câmbio porque o lucro é aferido em real no país e convertido em dólar para ser enviado ao exterior;, assinalou Maciel. Ele também ressaltou que a queda nos gastos dos brasileiros no exterior ;é reflexo do dólar, mas também sofre o impacto da baixa atividade econômica, por conta da influência na renda;. O chefe do Departamento Econômico do BC disse que o recuo de abril se estendeu até maio. ;Na parcial até sexta-feira passada, o saldo (receitas de gastos de estrangeiros no Brasil menos as despesas dos brasileiros fora do país) é negativo em US$ 818 milhões.

Com o dólar em alta e a situação econômica do país em baixa, quem não conseguiu postergar a viagem para o exterior teve que fechar a carteira. Foi o caso do publicitário Alexandre Fonseca, 26 anos, que só não adiou a viagem aos Estados Unidos, feita no mês passado, porque já estava com passagens compradas e hotel reservado desde o meio de 2014. Ele admitiu, contudo, que, se pudesse, teria deixado para ir alguns meses depois. ;Não acho que o dólar vá cair tão cedo, mas pelo menos eu teria mais tempo de economizar. O meu poder de compra acabou ficando muito reduzido lá;, lamentou.

Ao planejar a viagem, ele acreditava que, até abril, teria dinheiro suficiente para fazer as compras que gostaria nos 10 dias em Orlando e Miami. Mas, na hora de viajar, a situação econômica estava mais apertada do que imaginou. Com o dinheiro valendo menos, ele precisou cortar gastos e deixar para trás muitos dos produtos que pretendia comprar, como um videogame e uma câmera fotográfica. ;Preferi não arriscar para não faltar dinheiro depois;, explicou.

Para o economista da Tendências Consultoria Bruno Lavieri, a desaceleração dos gastos com viagens era previsível diante da economia em recessão e da depreciação cambial. ;O mercado de trabalho está dando sinais ruins e a renda está sem crescimento real. Isso desestimula as despesas. É uma tendência que deve continuar;, estimou. Para Lavieri, a expectativa de queda contínua no deficit das transações correntes, até a projeção do BC, de US$ 84 bilhões no fim do ano, não deve se confirmar. ;O BC é cauteloso. A nossa previsão é fechar 2015 com um saldo negativo de US$ 96,9 bilhões;, disse.

Na avaliação do ex-diretor do BC Carlos Eduardo de Freitas, a redução do deficit no balanço de pagamentos é um sinal de que a economia está se equilibrando. ;A taxa de juros e a expectativa de que o ajuste fiscal siga em frente fizeram efeito. O dólar se ajustou. Sinal de que a política econômica está funcionando;, analisou.


  • Fluxo robusto

    Um dos destaques anunciado ontem pelo Banco Central foi o investimento em ações de US$ 3,2 bilhões. Na análise de Octavio de Barros, diretor de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, isso demonstra que, de fato, os fluxos de capitais estrangeiros para o Brasil continuam robustos, apesar da forte volatilidade nos mercados brasileiros no início deste ano. ;Mantemos nossa perspectiva de redução do deficit em conta- corrente em 2015 para US$ 76 bilhões, o que equivale a 3,8% do PIB;, afirmou. No entender dos economistas do Itaú, o investimento direto de US$ 5,8 bilhões no mês foi bem acima das estimativas do banco, de US$ 4,3 bilhões. ;Apesar da surpresa no investimento direto, os fluxos seguem recuando em relação ao mesmo período de 2014.;

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