A visita do premiê chinês

A visita do premiê chinês

» ARMANDO CASTELAR Coordenador de economia aplicada do Ibre/FGV e professor do IR/UFRJ
postado em 27/05/2015 00:00
 (foto: Fernando Lopez)
(foto: Fernando Lopez)


Meu pai gostava de citar o ditado que ;cavalo dado não se olha os dentes;, o que sempre me fez pensar o quão comum devia ser, (muito) antigamente, presentear os outros com o nobre animal. Que o digam os troianos, que não olharam os dentes, nem a barriga, e acabaram se dando mal.

É provável que, em outros tempos, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, que visitou o Brasil semana passada, tivesse nos presenteado com cavalos. Como os tempos são outros, aqui aportou com uma lista de US$ 50 bilhões em projetos, principalmente de infraestrutura. Será o caso de olhar os dentes desses projetos? Parece-me que sim. Mas nem por isso devemos desprezar a oportunidade.

A realização de investimentos em infraestrutura no Brasil pelos chineses conjuga interesses dos dois lados, se as condições de financiamento forem razoáveis. O Brasil tem sérias carências de infraestrutura, especialmente em transportes. A dificuldade de realizar os investimentos planejados ; com obras que atrasam muito e estouram todos os orçamentos ; é parte do motivo de por que não conseguimos corrigir esse quando.

Além de investir mal, o Brasil investe pouco. Na média do sexênio 2007-2012, o Brasil investiu apenas 0,9% do PIB em transportes, incluídos os modais rodoviário (0,47% do PIB), ferroviário (0,14%), portuário (0,11%), metroviário (0,09%), aeroportuário (0,02%) e hidroviário (0,01%). São valores insuficientes para fazer frente ao aumento da demanda observado no período. O resultado são serviços de má qualidade, com os usuários pagando um custo elevado pelos frequentes congestionamentos e o grande tempo gasto em locomoção. Não por outra razão, o Brasil aparece tão mal posicionado nas comparações internacionais sobre a qualidade da infraestrutura.

A China investe, anualmente, 8,5% do PIB em infraestrutura, sendo cerca de metade em transportes, e consegue fazer os investimentos a custo bastante baixo. Pode-se ponderar que regulações mais brandas na área ambiental e no reassentamento das populações afetadas ajudam a baratear os investimentos. Mas essa é apenas parte da história: a escala elevada e o conhecimento técnico relativamente avançado também contam. Um bom exemplo é o setor ferroviário: o país conta com a maior rede de trens de alta velocidade do mundo.

Também interessa à China realizar investimentos no Brasil, usando insumos produzidos por suas empresas. Essas realizaram grandes inversões em expansão de capacidade e estão tendo de enfrentar o desafio de trabalhar com taxas de ociosidade acima do ideal. As margens também têm sido comprimidas pela queda dos preços das commodities.

O setor empresarial chinês responde pela maior parte do endividamento total no país ; atualmente, na faixa de 250% do PIB ; e vem sentindo a pressão do custo financeiro elevado, em contexto de queda nas taxas de retorno. A deflação observada no Índice de Preços no Produtor, que já dura quatro anos, tem aumentado a pressão sobre as empresas.

O governo vem reagindo a esse quadro, com redução da taxa de juros e dos depósitos compulsórios, dessa forma diminuindo a despesa com juros. Mas as empresas também precisam melhorar sua rentabilidade, inclusive por que o governo não deseja que o total de dívidas continue a crescer como vinha ocorrendo nem acomodar algum endividamento adicional dos governos subnacionais, para evitar uma política fiscal contracionista em nível local.

É nesse contexto que o governo chinês tem buscado estimular aplicações em infraestrutura, a serem financiadas e realizadas por organizações chinesas, em outros países. Encaixa-se nessa política o ambicioso projeto da Nova Rota da Seda, que prevê ligação ferroviária entre a China e a Europa Ocidental, com um ramal que iria até Moscou. Isso exigirá enormes inversões em países asiáticos a oeste da China. A África é outra região onde as empresas chinesas também têm tido forte atuação. E, não por coincidência, depois do Brasil Li Keqiang seguiu viagem para outros países latino-americanos, com ofertas semelhantes de cooperação. Assim, cabe ao Brasil negociar pragmaticamente os projetos apresentados pelo primeiro-ministro chinês, sem esquecer os próprios interesses, mas também sem ignorar a oportunidade que essa cooperação pode significar para ambas as partes.

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