Quimioterapia faz a mente divagar

Quimioterapia faz a mente divagar

Cientistas identificam que as sessões podem alterar o funcionamento do cérebro, causando dificuldade de concentração nos pacientes

Vilhena Soares
postado em 27/05/2015 00:00

Apesar de ser uma das principais armas de combate ao câncer, a quimioterapia tem um efeito colateral cognitivo. Ela pode comprometer a capacidade de concentração dos pacientes. Cientistas de uma instituição de ensino canadense acreditam que é possível analisar a queda nessa habilidade por meio da atividade cerebral. O estudo foi detalhado recentemente no jornal Clinical Neurophysiology e tem potencial para ajudar a reduzir os efeitos negativos da terapia antitumoral.


;Atualmente, não há testes bem aceitos para medir mudanças cognitivas relacionadas à quimioterapia. O objetivo desse estudo foi verificar se o padrão de ondas cerebrais pode ser uma maneira de avaliar as alterações que muitas mulheres relatam após o tratamento do câncer de mama;, destaca ao Correio Kristin Campbell, professora do Departamento de Fisioterapia da University of British Columbia (UBC) e primeira autora do estudo. ;Poderíamos usar isso como uma maneira de medir a mudança ao longo do tempo se tentássemos um tratamento para evitar esse problema;, complementa.
A equipe analisou dois grupos de mulheres: 19 estavam curadas do câncer de mama há três anos e 12 não tinham tido a doença. A idade das participantes variava de 40 a 65 anos. Todas foram submetidas a atividades para medir a capacidade de concentração. Durante as tarefas, um eletroencefalograma monitorou a atividade cerebral elas. As curadas do câncer apresentaram uma atividade neural menor e não conseguiam se concentrar como o grupo de mulheres saudáveis.


Os resultados diferentes, acreditam os cientistas, podem ter como motivo as sessões para o tratamento do tumor na mama. ;A razão pela qual a quimioterapia altera a capacidade de concentração não é bem compreendida. Há uma sugestão de que ela provoque inflamação no corpo, o que, por sua vez, pode influenciar no funcionamento do cérebro. E as mulheres relatam muitos sintomas após a quimioterapia, como problemas de atenção, memória e a capacidade de multitarefa (realizar várias atividades ao mesmo tempo);, explica Campbell.
Processo interrompido

Todd Handy, professor de psicologia da UBC e integrante da pesquisa, explica que os cérebros saudáveis funcionam de maneira cíclica. As pessoas conseguem se concentrar em uma tarefa e se envolver completamente com ela por alguns segundos e, em seguida, deixam a mente vagar um pouco. Após sessões de quimioterapia, porém, o cérebro pode permanecer nesse estado de divagação por mais tempo. ;Fica cronicamente vagando. Ele está essencialmente preso em um modo de fechar para fora;, explica.


No estudo, as sobreviventes ao câncer de mama, mesmo quando acreditavam se manter focadas em algo, estavam, de acordo com os resultados do eletroencefalograma, desligadas, com a mente vagando. Os pesquisadores também encontraram evidências de que as ex-pacientes eram mais focadas em seu mundo interior. Quando as mulheres não estavam realizando uma tarefa e simplesmente recebiam a orientação para relaxar, o cérebro ficava mais ativo em comparação ao das outras participantes.


Fernando Vidigal de Pádua, oncologista clínico de Centro de Câncer de Brasília (Cettro), destaca que o trabalho canadense é bastante interessante, mas ressalta que, ao se tratar de problemas cognitivos, outras áreas devem ser consideradas na análise. ;Vale destacar que a cognição engloba uma série de áreas, como a interação social e o estresse psicológico que essas pacientes passaram e pode ter deixado problemas de depressão e ansiedade, entre outros fatores;, destaca o especialista.


Campbell reconhece que o estudo precisa de aprofundamento, como testes com mais voluntários. Ainda assim, ele e os outros cientistas acreditam que a pesquisa traz esperanças de futuras terapias que impeçam novos problemas de saúde em sobreviventes do câncer. ;Esperamos que esse teste nos permita dar continuidade ao estudo com outros que gerem estratégias de intervenção potenciais, como o retreinamento cognitivo ; quebra-cabeças e desafios de memória, por exemplo ; ou o exercício de concentração, que mostrou melhora na função cognitiva em adultos mais velhos;, destaca.


Pádua avalia que pesquisas nessa área são muito bem-vindas porque a quantidade de pessoas que sobrevivem ao câncer tem aumentado em função de tratamentos e prevenções mais eficientes. ;Com isso, precisamos de informações que mostrem como as pessoas que se curaram estão se saindo nessa recuperação, se vão enfrentar novos problemas. Esses estudos são necessários, pois queremos essas pessoas com qualidade de vida. E, dentro disso, entra a cognição.;


O oncologista reforça ainda que, apesar do risco de comprometimento cognitivo, a quimioterapia é uma das armas mais eficientes no combate ao câncer e, por isso, deve ser usada. ;Pacientes preferem não se submeter a ela com medo dos efeitos neurológicos, o que é um problema, já que muitos estão vivos graças a esse tratamento.;

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