Falta de higiene causou endemia de superbactérias

Falta de higiene causou endemia de superbactérias

No dia em que lançou o Plano de Enfrentamento da Resistência Bacteriana, o secretário de Saúde admitiu que falhas na limpeza das unidades de saúde levaram à proliferação de micro-organismos multirresistentes. Haverá controle até nos antibióticos

postado em 10/06/2015 00:00
 (foto: Renato Araújo/Agência Brasília)
(foto: Renato Araújo/Agência Brasília)



A falta de higiene provocou a endemia de superbactérias que atinge toda a rede pública de saúde. Ontem, durante o anúncio do Plano de Enfrentamento da Resistência Bacteriana, o secretario de Saúde, João Batista de Sousa, reconheceu que ;faltaram insumos de higiene e desinfecção nos hospitais;. Apesar de descartar um surto, o titular da pasta traçou três ações básicas para coibir a proliferação de micro-organismos multirresistentes. As principais mudanças serão quanto ao uso dos antibióticos e à identificação de pacientes infectados (veja No combate). O planejamento passa a valer a partir de hoje e não há previsão de quanto custará aos cofres públicos. Hoje, o subsecretário de Atenção à Saúde, José Tadeu Palmieri, e a infectologista-chefe do GDF, Maria de Lourdes Lopes, prestam depoimento na 1; Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde (Prosus) do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT).

Segundo João Batista, o plano não elimina as superbactérias, mas melhora a situação atual. ;Nós não vamos resolver essa questão, vamos controlar o avanço de bactérias multirresistentes em hospitais públicos;, esclareceu. A partir de agora, farmacêuticos fiscalizarão a dosagem e o tipo do medicamento a fim de uma aplicação mais racional. Além disso, todas as pessoas que passarem pelas unidades de terapia intensiva (UTI) serão submetidas a testes para a constatação da presença de bactérias no organismo.

Segundo a secretaria de Saúde, capotes, luvas, gorros, além de itens de limpeza e antibióticos, estão garantidos pelos próximos seis meses. Porém, atualmente, as prateleiras da rede pública têm a carência de cinco antibióticos derivados da penicilina. ;Não são os usados para o combate a infecções graves;, advertiu o secretário.

Longe de ser uma situação confortável para os brasilienses, João Batista disse não entender o pânico da população. ;Essa é uma situação normal para os hospitais nos últimos quatro anos;, justificou. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde 20 de abril foram três notificações sobre o aumento expressivo desses organismos na rede.

Investigações

Enquanto as medidas são aplicadas, o subsecretário Tadeu Palmieri e a infectologista Maria de Lourdes darão esclarecimentos, hoje à tarde, ao promotor de Defesa da Saúde, Jairo Bisol. Ele quer saber detalhes sobre o controle de bactérias, além de informações sobre as falhas que propiciaram a ;endemia;. ;Precisa ficar clara a atual situação da rede e o risco, mesmo que pequeno. Temos de averiguar o que está sendo feito e as causas do problema;, explicou Bisol. Como o Correio divulgou no último sábado, toda a rede pública e algumas unidades privadas têm a superbactéria Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase (KPC). São pelo menos 200 pessoas colonizadas, ou seja, que têm a bactéria no organismo. Dessas, 107 desenvolveram a infecção.

O plano do GDF foi divulgado ontem em resposta a cobranças da Anvisa e do ministro da Saúde, Arthur Chioro. Nenhum representante dos órgãos se manifestou sobre as medidas, mas fontes ligadas ao governo federal disseram que ;a expectativa era de uma ação mais ativa.;

No total, quatro pessoas infectadas por bactérias multirresistentes morreram em seis dias. Os casos surgem desde 28 de maio. Todas as vítimas tinham o mesmo perfil: idosas com doenças crônicas internadas há pelo menos um mês. Sete pessoas continuam em isolamento em hospitais regionais. Em Taguatinga, há três. No Guará, duas. E em Santa Maria e em Sobradinho, uma cada.


No combate
Veja os principais pontos do plano de enfrentamento

; Compra de produtos de limpeza e desinfecção
; Higienização dos ambientes hospitalares
; Fornecimento de antibióticos
; Fiscalização do uso correto de antibióticos
; Realização de exames para atestar contaminação por bactéria em todos os novos pacientes da rede pública
; Qualificação de equipes para protocolos de segurança

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