Cartola duro na queda

Cartola duro na queda

Em sabatina de cinco horas na Câmara e recheada de referências religiosas, Del Nero volta a negar que seja o %u201Ccoconspirador 12%u201D do relatório da investigação americana, diz que fica até o fim do mandato, mas precisa oferecer a outra face ao ouvir um %u201Cpede para sair%u201D ao fim da sessão

AMANDA MARTIMON
postado em 10/06/2015 00:00
 (foto: Alex Ferreira/Camara dos Deputados)
(foto: Alex Ferreira/Camara dos Deputados)


Se a estratégia do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Marco Polo Del Nero, em sua passagem pela Câmara dos Deputados, em Brasília, era a de apelar para todos os santos e voltar para casa no 0 x 0, ele foi bem-sucedido. Do momento em que pisou no Congresso até a hora de ir embora, o semblante vestiu o estilo ;impassível; e a voz recuou alguns decibéis para manter um tom quase pastoral durante todo o jogo. Não que Del Nero tenha sido exatamente pressionado nas cinco horas de sabatina na Comissão de Esporte da Câmara, mas, mesmo nos ;acréscimos;, quando sua renúncia foi pedida abertamente, o dirigente mal piscou. Ou pigarreou.

Com o mesmo tom que respondeu sobre o antecessor José Maria Marin, suspeitas de envolvimento no escândalo da Fifa e mudanças no futebol nacional, Del Nero ; apenas Marco Polo para muitos dos deputados ; anunciou que fica até o último dia do mandato. Ou, ao menos, que assim deseja.

Apesar da oportunidade de os parlamentares pedirem esclarecimentos ao mandatário sobre os recentes escândalos da Fifa, que espirraram na CBF, afinal a sabatina na comissão tinha essa finalidade, foi a fé ; em parlamento laico ; que dominou a audiência. Acusado, por vezes, de ser ;ingrato; com o ex-presidente Marin, ou de ser ;coconspirador 12;, termo usado pela inteligência norte-americana no esquema de corrupção do futebol, Del Nero buscou enfatizar seu apoio ao ;irmão;. ;Corta o coração saber que ele (Marin) está preso. Gostaria que Deus desse força para ele responder, se defender. Mas dói;, pregou. Foi quase um pedido de desculpa. Um pouco antes, Del Nero havia escorregado e falado do antecessor no passado: ;Eu tinha o Marin como uma pessoa que eu gostava como um irmão;. E acrescentou que não fala com o ex-presidente da CBF desde a prisão.

Se o apelo divino pareceu performático demais, as incursões inesperadas ficaram todas para o fim. Um dos últimos parlamentares a se pronunciar, Andrés Sanchez (PT-SP) vagou entre nervoso e simpático. Depois de sair para fumar três vezes, o ex-presidente do Corinthians ; que se diz ;um dos principais opositores da CBF no Congresso; e costuma salpicar uma crítica aqui, outra ali a Del Nero ; pegou tão leve com o convidado que chegou a elogiá-lo. ;Eu fui um dos que disse que você nunca viria, quero parabenizá-lo;, começou.

Conhecido pelo temperamento ardil, Sanchez foi, inclusive, um dos poucos que conseguiu arrancar sorrisos de Del Nero, que só esboçou momentos de descontração em outras duas situações. Para encerrar o sermão, o deputado se esforçou na ironia. ;Sou contra a sua renúncia. Espero que você não seja o 12; coconspirador, porque seria uma mancha muito triste para o futebol brasileiro. Rezo todos os dias para o senhor não ser o 12; coconspirador.;

Sem renúncia

Com a bancada da bola na ;plateia; para ajudar a manter o placar em branco e amenizar o clima de constrangimento da sabatina, sobrou para um novato e campeão olímpico a cena mais direta e sincera da audiência, no Plenário 4, da Câmara. Mais do que perguntas, o deputado João Derly (PCdoB-RS), ex-judoca, golpeou. ;O senhor acha que existe mais alguém do que o senhor com esse perfil do 12; conspirador (que está na investigação)?;, questionou. Depois, evitou atalhos e apelou para a sinceridade: ;Acho que o senhor deveria renunciar como um ato de grandeza;, sugeriu. Sem nenhuma reação imediata, Del Nero seguiu ouvindo.

Reprovado

O clima de missa esmoreceu a comissão mais uma vez, até que o deputado Altineu Côrtes (PR-RJ) pediu a palavra. ;O senhor é a continuidade de um modelo corrupto do futebol brasileiro, do Ricardo Teixeira, do Marin, que está preso. A minha colocação de renúncia é porque o modelo que o senhor representa foi reprovado.;

Quando teve a palavra, Del Nero abandonou a religião e deixou seu recado. ;Eu não renuncio. Eu fui eleito democraticamente. Eu tenho obrigação (de ficar);, respondeu. Ele ainda acrescentou que tem vontade de deixar o comando, mas que fica para ;preservar o nome da entidade;. Por várias vezes, Del Nero repetiu que desconhece qualquer investigação contra ele, assim como envolvimento em contratos ilegais ou outras irregularidades.

Ao deixar o Congresso, seguido por cinegrafistas, fotógrafos e jornalistas, causou tumulto, mas se manteve em silêncio. Um funcionário da Casa, que acompanhava a confusão, resumiu o dia. ;O Del Nero está mais famoso que o papa. Só não sei se é santo;, definiu, referindo-se à superlotação na Comissão de Esportes, que, em dias comuns, tem cadeiras vazias.

Amigos para sempre

Além de deputados ligados a clubes de futebol, três membros da CBF estavam entre os parlamentares que questionaram Del Nero. O deputado Marcus Vicente (PP-ES) é
vice-presidente da entidade, Marcelo Aro (PHS-MG) é diretor de Ética e Vicente Cândido, diretor de relações internacionais.

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