Liberdade após 43 anos na solitária

Liberdade após 43 anos na solitária

Juiz federal ordena soltura imediata de Albert Woodfox, antigo membro do grupo de resistência afro-americana Panteras Negras

postado em 10/06/2015 00:00
 (foto: Max Whittaker/Reuters - 30/7/13)
(foto: Max Whittaker/Reuters - 30/7/13)


Depois de passar a maior parte dos últimos 43 anos confinado em uma pequena cela na Penitenciária Estadual da Louisiana, Albert Woodfox, 68, pode ser libertado da prisão ainda nesta semana. Antigo membro dos Panteras Negras e último do grupo conhecido como ;Três de Angola; a permanecer na prisão, Woodfox foi beneficiado pela decisão do juiz federal James Brady, que ordenou a liberação imediata e proibiu que promotores estaduais invistam em novo julgamento. Se a decisão for cumprida, Woodfox deve cruzar as portas da prisão para um mundo marcado pelos avanços acumulados em quatro décadas, em uma situação digna de filme de ficção.

Quando ele foi detido, não existia telefone celular, computador ou internet; a Guerra do Vietnã ainda estava em curso; golpes militares marcavam a América Latina; e o Muro de Berlim havia sido construído há pouco, dividindo a Alemanha. Nos últimos 40 anos, as vitórias do movimento negro dos Estados Unidos foram inúmeras e permitiram a chegada de um afro-americano ao cargo mais importante do país, assim com o aumento no número de representantes em universidades e em posições de destaque no mercado de trabalho. A igualdade social, no entanto, permanece um desafio, exposto aos olhos do mundo a cada novo escândalo envolvendo injúrias e crimes raciais (Leia abaixo).



Woodfox foi condenado a 50 anos de prisão por roubo a mão armada no fim da década de 1960, quando os EUA viviam um período de fortes lutas sociais. Foi nessa época, já na prisão, que Woodfox conheceu Robert Hillary King e Herman Wallace. Juntos, eles organizaram uma célula dos Panteras Negras e passaram a lutar pela garantia dos direitos humanos dos presos e por melhorias na penitenciária de Louisiana, também conhecida como Angola, em referência à origem dos escravos que trabalhavam em uma antiga plantação que existia no local.

Revogações

O pouco contato que Woodfox e King mantinham com o mundo exterior foi reduzido em 18 abril de 1972, após o guarda Brent Miller, 23 anos, ser esfaqueado durante uma ronda. Os dois foram apontados como os responsáveis pelo crime e enviados imediatamente ao isolamento ; durante 23 horas por dia, ficaram confinados em uma cela de 3m por 2m. Mandado para a solitária aos 25 anos, Woodfox se tornou o preso que passou mais tempo isolado nos EUA. Sua condenação foi revogada três vezes. Em todas as ocasiões, a procuradoria de Louisiana recorreu das decisões. Em fevereiro passado, o Estado recorreu novamente, decidindo investir em um terceiro julgamento contra o prisioneiro.



Na decisão de anteontem, o juiz James Brady determinou que, devido a ;condições excepcionais;, Woodfox não deve ser levado ao banco dos réus. Entre elas, Brady citou a idade e os problemas de saúde do preso, acometido por hepatite C, hipertensão, insuficiência renal crônica, diabetes tipo 2 e insônia. O ;prejuízo; sofrido por ele depois de passar mais de 40 anos em isolamento e a incapacidade do Estado de promover ;um julgamento justo; são outras as razões citadas. O caso de Woodfox foi alvo de inúmeras críticas, que vão desde ao testemunho de um cego, que disse ter visto o ataque ao guarda Miller, a denúncias de tortura corroboradas por observadores da ONU.

Informado da vitória judicial, Woodfox está ;animado e nervoso;, segundo Tory Pegram, coordenadora da campanha por sua libertação. A organização Anistia Internacional, que participou da cruzada, comemorou a decisão e afirmou, em nota, que ;a única ação humana que as autoridades de Louisiana podem tomar agora é garantir que ele seja liberado imediatamente;.



Medida polêmica

Saiba mais sobre o confinamento solitário nos Estados Unidos:

; 80 mil prisioneiros ainda estão em celas solitárias nos EUA.
; Esse tipo de cela está disponível em 44 Estados ; 25 mil detentos estão nas supermax, prisões de segurança supermáxima.
; As condições variam, mas os presos podem ficar até 23 horas por dia na solitária.
; Os psicólogos alertam para reações negativas, como o pânico em isolamento.
; O relator global da ONU defende a proibição global do confinamento solitário em todos os casos.
; Os defensores alegam que a medida é necessária para proteger outros prisioneiros e funcionários da prisão.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação