Células-tronco ajudam a entender a bipolaridade

Células-tronco ajudam a entender a bipolaridade

Estudo identifica alterações em neurônios ligadas ao transtorno. A descoberta pode levar a novos tratamentos para o problema

» Renan Damasceno
postado em 10/06/2015 00:00

Belo Horizonte ; O avanço das pesquisas com células-tronco pode representar um grande passo para o entendimento e o tratamento de um problema que acomete cerca de 15 milhões de brasileiros: o transtorno bipolar, distúrbio caracterizado por alterações de humor extremas, em que o paciente vive fases alternadas de depressão e euforia. Pesquisa realizada pela Escola de Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, permitiu aos cientistas identificar diferenças em neurônios de pessoas que sofrem com a condição. Além disso, foi possível observar a maneira como as células nervosas se comunicam e como respondem ao lítio, substância comumente usada em tratamentos psiquiátricos.

Para isso, os cientistas começaram com a produção dos neurônios por meio de um método bastante conhecido, no qual células da pele são transformadas em estruturas pluripotentes (com potencial para se converterem em qualquer tipo celular) e, em seguida, estimuladas até se transformarem em células do sistema nervoso. De forma ainda inicial, foi possível observar comportamentos diferentes entre os neurônios normais e os de pessoas com o transtorno, principalmente nos sinais de cálcio, cruciais para o desenvolvimento do neurônio e de suas funções.

Além do resultado, o método utilizado pelos norte-americanos representa um grande avanço para a ciência, garante o médico hematologista Nelson Tatsui, do Hospital das Clínicas de São Paulo. ;Há 20, 30 anos, era uma verdade absoluta na medicina que, uma vez a célula tornando-se adulta, nunca seria possível regredi-la ao estágio embrionário. Nos últimos anos, algumas pesquisas, como essa, têm usado esse artifício, que abre muitas possibilidades para entender melhor várias doenças, como o transtorno bipolar e outros distúrbios psiquiátricos;, explica o médico.

Ao regredir os neurônios obtidos a partir das células-tronco, foi possível analisar o comportamento das novas células em reação com o lítio, comumente receitado a pacientes psiquiátricos. ;Dezenas de doenças psiquiátricas são diagnosticadas, mas não há ainda uma especificidade genética. Ao apresentar a pesquisa, o laboratório teve muito cuidado para comprovar que a célula era mesmo embrionária antes de ser transformada em tecido neurológico;, comenta Tatsui. ;Aos poucos, por meio de pesquisas criteriosas em laboratório, as células-tronco vão se revelando não como uma cura milagrosa, mas oferecendo mecanismos para entender melhor doenças que, até então, eram tratadas de formas inespecíficas.;

Sintomas na infância
O início dos sintomas do transtorno bipolar na infância e na adolescência é cada vez mais descrito e, em função de peculiaridades na apresentação clínica, o diagnóstico é difícil, segundo a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ATBT). Não raramente, as crianças recebem outros diagnósticos, o que retarda a adoção de um tratamento adequado. Ainda de acordo com a entidade, estimativas indicam que um portador que desenvolve os sintomas da doença aos 20 anos, por exemplo, pode perder nove anos de vida e 14 anos de produtividade profissional, se não for tratado adequadamente.

Quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o prognóstico, defende Maurício Leão Resende, presidente da Associação Mineira de Psiquiatria (AMP). ;Temos visto avanços importantes para o tratamento do transtorno bipolar. Até a década de 1990, acreditava-se que a doença se manifestava apenas na idade adulta, o que retardava o diagnóstico e, claro, o tratamento. Hoje, sabemos que o transtorno pode se manifestar desde a infância, que tem base genética, com incidência grande em quem já tem casos na família;, explica, acrescentando que ;existem pesquisas para definir marcadores biológicos de alta fidedignidade, mais bem estudados com algoritmos da ciência da computação, que permitem diagnósticos mais precisos;.

Se, por um lado, o acesso à informação tem incentivado as pessoas a procurarem tratamento, por outro, houve uma ;banalização do termo;, afirma Leão. ;É uma doença que passou a ter apropriação popular e, hoje, qualquer alteração de humor, uma pessoa é tachada como bipolar. Como seres humanos, somos capazes de chorar ao perder um ente querido e ficar felizes ao ganhar na loteria. É humano sentir fortes emoções e alterar o humor. O transtorno é quando as emoções não têm relação com a realidade. Aí, é preciso procurar tratamento.;


Para saber mais

Regulamentação polêmica
O avanço nas pesquisas tem desmistificado o alcance dos tratamentos com células-tronco. ;Até há algum tempo, a população acreditava que era só injetar células-tronco em um músculo para o paciente com alguma paralisia voltar a andar. Com o tempo, as coisas foram se assentando. A comunidade científica vai mostrando alguns passos interessantes que podem ajudar a humanidade de forma direta sem pleitear um milagre;, explica o médico hematologista Nelson Tatsui.

No Brasil, o debate sobre o uso de células-tronco entrou definitivamente em pauta em 2005, com a aprovação da Lei de Biossegurança, que regulamenta o uso dessas estruturas em estudos. Passados 10 anos, a lei ainda é alvo de muito debate. ;A legislação é solta e não enfrenta o problema. O artigo 5; da Lei de Biossegurança fala que as pesquisas permitem o uso de células-tronco para fins de estudo desde que sejam embriões congelados há três anos, mas uma resolução do Conselho Federal de Medicina, de 2013, fala em cinco anos. Esse é só um dos exemplos de quanto a lei tem pontos discutíveis, ou seja, há muita imprecisão na regulamentação;, diz a professora Lívia Campos, mestre em bioética e aspectos jurídicos e membro do Conselho de Bioética e Biossegurança da Ordem dos Advogados do Brasil. (RD)


Entenda

Tipos
O transtorno bipolar é dividido
em dois tipos:

I ; Presença de episódios de depressão e de mania. Ocorre em cerca de 1% da população geral

II ; Alternância de depressão e episódios mais leves de euforia (hipomania). A prevalência pode chegar a 8% da

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