O legado que ficou no discurso

O legado que ficou no discurso

Um ano se passou depois do Mundial, que chegou com a promessa de desenvolvimento. A festa foi boa, mas comerciantes e prestadores de serviços reclamam que o lucro ficou restrito à competição. Turismo, transporte e urbanização também esperam planos saírem do papel

» MATHEUS TEIXEIRA » ROBERTA PINHEIRO
postado em 10/06/2015 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)





Durante um mês, Brasília se transformou. A ideia de ser uma cidade cosmopolita nunca foi tão verdadeira como na Copa do Mundo de 2014. A Esplanada dos Ministérios, a Torre de TV, o Pontão do Lago Sul e outros pontos turísticos foram tomados por colombianos, argentinos e franceses, entre outros. A capital acabou eleita uma das cidades sedes mais bonitas e limpas. Os turistas prometeram voltar. Mas, um ano depois do megaevento, a expectativa de diferentes setores, como o hoteleiro e o gastronômico, não foi atendida. A maior obra, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, chama a atenção de quem passa, mas o governo diz que não tem condições financeiras de sustentá-lo.

Segundo a Secretaria de Turismo do DF, no período do Mundial, 632.646 turistas passaram por Brasília. Do total, 488.903 vieram de estados brasileiros e 143.743 tiveram origem internacional. Os números superaram a expectativa projetada pelo Ministério do Turismo, que era de 490.929 visitantes. Dados do Observatório de Turismo do DF revelam que o fluxo de entrada na capital aumentou desde 2012. Ao comparar as taxas de desembarques nacionais e internacionais no Aeroporto de Brasília em 2014 e de 2015, nota-se a diferença. No ano passado, somando voos nacionais e internacionais, o total foi de 279.992. Este ano, a marca chegou a 449.333. Segundo informações da Inframerica, concessionária responsável pelo terminal, o mês de janeiro de 2015 bateu recorde de movimento: 1,8 mil passageiros.

Apesar de o aeroporto registrar o crescimento, quem trabalha com turismo na capital, como hotéis, feirantes e restaurantes, não confirma as vantagens de a cidade ter sediado jogos da Copa do Mundo. ;De legado, tirando o estádio, que é visível, o restante a gente não vê. Houve um incremento na quantidade de número de quartos. A média de ocupação atingiu 65%, mas não foi de 100% como imaginado. Passado o evento, voltamos para a média normal, de 45%;, explica o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília (Sindhobar-DF), Jael Antônio da Silva.

Na avaliação dele, um dos principais problemas da cidade é o transporte. A técnica de enfermagem Débora Guimarães de Farias, 29 anos, veio de Goiânia para passar um dia na capital e concorda. ;Se não tivesse vindo de carro não teria conhecido metade do que conheci. Não tem referência de ponto de ônibus. A comunicação visual é falha. Tive que me informar com um primo antes;, conta.

A falta de informações atinge outras áreas: dos sete Centros de Atendimento ao Turista (CAT) ; Setor Hoteleiro Norte, Setor Hoteleiro Sul, dois no Aeroporto, Rodoviária Interestadual, Torre de TV e Praça dos Três Poderes ;, atualmente, apenas dois funcionam. De acordo com a Secretaria de Turismo, o contrato dos recepcionistas encerrou e o governo aguarda recurso para nova licitação. Contudo, as placas feitas em dois idiomas para os pontos turísticos permanecem e são muito usadas pelos visitantes.

;Acabou;

A Copa do Mundo trouxe visibilidade para Brasília. Mas, depois de um ano, alguns projetos não funcionam como o previsto e outros não saíram do papel. ;A Copa foi muito boa. Atraiu muita gente para a feira (Feira da Torre de TV), mas acabou. Não tem incentivo do governo, não tem publicidade nem infraestrutura para receber turista;, afirma Sibele Lucchesi, 53 anos, proprietária de uma barraca há 45 anos. Ela reclama também da falta de fiscalização e de segurança, e acredita que se a cidade promovesse mais eventos no Centro de Convenções, por exemplo, o movimento seria melhor. ;Estamos vivendo a crise pós-Copa que os economistas falavam. Tive um aumento de 100% das vendas na época e agora tem seis meses que não produzo nada novo porque não tem saída.;

Na percepção da presidente do Sindicato dos Permissionários de Táxis e Motoristas Auxiliares do DF, Maria do Bonfim Pereira de Santana, além da baixa no movimento pós-Copa, o ano não foi fácil por conta da crise econômica nacional. ;A inflação voltou, o desemprego e as taxas de juros subiram e o poder aquisitivo vem diminuindo. Tem também a questão da violência. Não tem polícia, iluminação, as pistas estão sem manutenção. No Mundial foi melhor.; No setor gastronômico, a situação não é diferente. Os custos aumentaram e os empresários se dividem entre pagar as contas e aumentar o valor dos produtos. ;A gente esperava mais da Copa. Não tenho dúvidas de que deixou um legado, principalmente, de qualificação dos profissionais. Mas, se nada for feito, isso não vai perdurar;, comenta Rodrigo Freire, presidente da Abrasel-DF.


632.646
Quantidade de turistas que passaram por Brasília durante a Copa do Mundo de 2014


O que ficou
Confira o que existe do programado para o Mundial, o que falta fazer e quais são os planos futuros

; Setor hoteleiro: o Sindhobar-DF busca parceria com a Secretaria de Turismo, com a Secretaria de Cultura e com a Inframerica para encontrar uma maneira para que o turista que vem pela manhã e volta à noite fique na cidade pelo menos uma pernoite. Além disso, quer trazer o turismo cívico e atrair estudantes de outras cidades para conhecer a capital do país.

; Segurança Pública: o Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CICCR) funciona regularmente para monitorar grandes eventos. Este ano, por exemplo, foi acionado para acompanhar os protestos na Esplanada dos Ministérios. A previsão era de que 835 câmeras fossem instaladas. A pasta informou que, como os pagamentos deixaram de ser feitos no governo passado, a empresa contratada para instalar os equipamentos pediu a suspensão do contrato. A secretaria criou um grupo de trabalho para avaliar o projeto e readequá-lo às estratégias de segurança pública do atual governo.

; Mané Garrincha: em 2015, foram realizados no Mané Garrincha 20 eventos culturais e institucionais e seis jogos oficiais de futebol, com o público de mais 200 mil pessoas. Até o fim do ano, a arena tem propostas para a realização de mais, além de servir de base para algumas secretarias do governo. O programa de visitação ao estádio turistas e moradores do DF para conhecer a arena durante visitas guiadas. Cerca de 30 mil pessoas já foram conhecer o local.

; Obras e urbanização: a construção da via de ligação entre a W4 Norte e a W5 Sul, de dois túneis para passagem de pedestres ; um entre o Parque da Cidade e o Clube do Choro e outro entre o Centro de Convenções e o estádio ; e da urbanização das saídas dos túneis e melhoria

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