Encontros e despedidas

Encontros e despedidas

Familiares e amigos se despedem do compositor Fernando Brant, que morreu na sexta-feira, de complicações causadas por um transplante de fígado. Corpo foi enterrado em Belo Horizonte

Márcia Maria Cruz Landercy Hemerson
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Euler Junior/EM/D.A Press)
(foto: Euler Junior/EM/D.A Press)

B elo Horizonte ; verso da canção Encontros e despedidas, de Fernando Brant e Milton Nascimento, ilustra bem a última reunião do Clube da Esquina para o velório e o enterro do compositor na capital mineira. O grupo de amigos e músicos deu fama à confluência das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no Bairro Santa Tereza. Ontem, a esquina mudou de lugar. Transferiu-se para o Palácio das Artes, onde familiares, artistas e fãs se despediram de Fernando Brant, que morreu na noite de sexta-feira, aos 68 anos, em decorrência de complicações de um transplante de fígado.

O último encontro foi marcado pela gratidão a quem fez diferença na vida de tantas pessoas. Milton Nascimento, Lô Borges, Tavinho Moura e Toninho Horta foram se despedir do amigo e parceiro. ;Fernando foi um dos meus primeiros parceiros. Fizemos composições que ficaram eternizadas. Era um cara extremamente afetivo e inspirado. É um querido amigo, é um querido parceiro. É um momento de tristeza;, afirmou Lô Borges, que compôs com Brant Para Lennon e McCartney e Feira moderna, entre outras canções.

O velório no palácio começou às 9h, quando a família abriu o espaço para os fãs que prestaram as últimas homenagens ao músico. Os irmãos Moacyr, Paulo, Roberto e Lucy foram os primeiros a chegar. Aos poucos, muitos amigos, companheiros do mundo da música, políticos e fãs encheram o local. O clima era de muita tristeza, mas de reconhecimento da importância artística de um ícone da música brasileira. ;Ele eternizou que amigo é coisa para se guardar. Digo que irmão é coisa para se guardar. As pessoas o conhecem muito como músico, mas o melhor lado é humano;, disse Moacyr Brant. Fernando, como destacou o irmão, amava o Brasil e demonstrava isso em suas letras. ;Era um ser humano extraordinário.;

A filha Ana Luísa Brant, 39 anos, disse que o pai estava muito confiante em relação ao transplante de fígado. ;Estávamos confiantes e ele também. Tinha certeza que iria dar certo. Deu, mas não imaginávamos que ele iria nos deixar;, lamentou. Para ela, o pai era uma pessoa muito sonhadora e engajada. ;Um homem admirável, meu ídolo;, afirmou.

À tarde, foi celebrada uma missa de corpo presente. Estiveram juntos por todo tempo a viúva, Leise, e os três filhos, Ana Luísa, Isabel, 37, e Diógenes, 27. Os irmãos e sobrinhos de Brant também prestaram homenagens.

Alma
O governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), os senadores Aécio Neves e Antonio Anastasia, e o ex-deputado Eduardo Azeredo (PSDB) estiveram no velório. ;Uma perda inestimável. Fernando Brant carregava consigo a alma mineira e a carregava por todo o Brasil na sua singeleza e profundidade. Fernando era um homem público na dimensão maior que isso pode expressar;, afirmou o senador Aécio Neves. Amigo de Brant, Aécio ressaltou que ele foi um dos conselheiros mais importantes de seu governo e que teve papel fundamental para pensar o Circuito Cultural da Praça da Liberdade.

Pimentel destacou que Brant é homem de sua geração. ;Ele cresceu junto comigo. Tivemos os mesmos sonhos, as mesmas angústias, esperanças. Pessoa que representa muito o que fizemos da nossa juventude até hoje. Ele fez no campo da música uma das maiores revoluções, o advento do Clube da Esquina. Deixou um legado inestimável na arte e na música popular.;

Adeus
Uma cerimônia discreta, simples, cercada de emoção, como era o próprio Fernando Brant. Assim foi o sepultamento do compositor no Cemitério do Bonfim, na Região Noroeste de Belo Horizonte. Entre os parceiros do Clube da Esquina, estavam Toninho Horta e Milton Nascimento. Parentes, amigos, muitos do meio musical, e fãs entoaram Canção da América, começando por ;amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves...; A clássica Travessia, falando da partida do amigo, e Menestrel das Alagoas, com a pergunta: ;quem é esse viajante;.

Muito emocionado, Milton considerou que foi uma boa homenagem ao amigo a despedida no cemitério, com músicas, como Brant merecia. ;Eu não sei falar (sobre a morte de Brant) mais, porque para mim é uma tristeza. Eu estava numa felicidade ontem (sexta-feira), antes de saber das coisas. E pensei que era alguém querendo passar um trote; não era, infelizmente. E hoje, às 5h, saí do Rio, viemos para cá, agora para saudar um grande amigo de sempre, um dos melhores amigos que a gente pôde ter na vida. Não tenho palavras para descrever;, disse Milton antes de deixar o cemitério.

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