Em jejum por liberdade

Em jejum por liberdade

Cerca de 100 estudantes e opositores jejuam em protesto contra violações de direitos humanos e exigem anistia a presos políticos

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Federico Parra/AFP)
(foto: Federico Parra/AFP)




Igreja Guadalupe de las Mercedes, município de Baruta, região metropolitana de Caracas. Vinte e dois estudantes e opositores estão deitados em colchões, sob as imagens de Nossa Senhora estampadas na parede. Alguns deles começaram uma greve de fome há 15 dias e não têm a intenção de desistir. Aluna da Universidade Central da Venezuela (UCV) e coordenadora juvenil do partido Voluntad Popular no estado de Miranda, Mariana Suárez, 24 anos, aderiu ao protesto anteontem. ;Decidi me unir à causa para pressionar o governo com um pedido legítimo e democrático. Nós exigimos a libertação dos presos políticos, o fim da repressão, a marcação das eleições parlamentares e uma intervenção internacional;, explicou ao Correio. ;Somente pararemos quando conseguirmos nossos objetivos. Não fazemos greve de fome para morrer, mas para viver com dignidade;, acrescentou a jovem, cuja dieta se resume a água. Ela prefere não pensar na morte ou em possíveis complicações da greve de fome. ;Eu me encomendo a Deus e às forças que me dão minha família e meus amigos para seguir adiante;, resumiu.

Em todo o país, cerca de 100 pessoas participam do jejum político, incluindo Leopoldo López, um dos principais líderes da oposição, preso há mais de um ano na penitenciária militar de Ramo Verde. Conselheiro do município de Chacao, Alfredo Jimeno, 37 anos, iniciou a greve de fome às 11h30 de quinta-feira (hora de Brasília). ;Foi uma decisão difícil, mas era o mínimo que podíamos fazer. Temos irmãos em luta, como Leopoldo e Daniel Ceballos (prefeito de San Cristóbal), que estão presos. Nosso ato vai elevar os custos do governo;, justificou ao Correio, por telefone, desde a Plaza Bolívar de Chacao, onde está acampado. Ele conta que a filha de 3 anos desconhece seu protesto e insiste que o jejum também tem um matiz social.
;Vamos manter essa luta viva. Em meu país, muitas pessoas estão sem comer, fazem uma greve de fome forçada;, lembrou.



;Parece-me da maior gravidade que esses venezuelanos precisem recorrer a uma opção tão extrema como a greve de fome para que a comunidade internacional confronte o governo de Nicolás Maduro pelas constantes violações aos direitos humanos e às liberdades públicas;, declarou, por telefone, José Miguel Vivanco, diretor executivo das Américas da Human Rights Watch (HRW). Segundo ele, a organização não governamental realizou várias investigações na Venezuela e constatou que a Guarda Nacional Bolivariana, o Exército e grupos de delinquentes armados cometeram gravíssimas violações aos direitos fundamentais, incluindo a tortura física e psicológica contra manifestantes pacíficos. ;Elas ocorrem em um país onde não existe um Poder Judicial independente capaz de fazer justiça e de prevenir abusos. Na Venezuela, o Judiciário é um apêndice do Executivo;, lamentou, ao creditar os abusos à inexistência de instituições capazes de amparar os opositores e de impedir atropelos do regime.

Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López (Leia Três perguntas para), contou à reportagem que o marido tem sido submetido a tratamento degradante. ;Eles trataram de torturá-lo psicologicamente, mas Leopoldo é um homem com uma fortaleza muito sólida. Então, invadem sua cela constantemente e a revistam, além de lançarem fezes e urina ao local. Também apontaram um fuzil contra seu peito, dizendo-lhe que o levariam;, disse. A ativista defende que a América Latina precisa compreender que o tema demanda o compromisso dos democratas. ;Por aqui, não há dois pesos nem duas medidas. Não podemos nos proteger por trás da não ingerência, pois os direitos humanos não têm fronteiras. Fazemos um chamado à consciência internacional e aos líderes da região para que se manifestem a favor dos direitos humanos;, acrescentou.

Solidariedade

De acordo com Tintori, o regime de Maduro mantém atualmente 70 presos políticos. ;O crime deles foi o simples fato de discordar. No ano passado, recebemos apoio e solidariedade não apenas das instituições de defesa dos direitos humanos mais importantes do mundo, mas também de dezenas de ex-presidentes, chefes de Estado, primeiros-ministros, senadores, deputados, governos e parlamentos. Todos têm sido criticados por Maduro nos meios de comunicação do Estado, os quais seguem uma linha de comunicação clara: destruir moralmente todos aqueles que pensam de modo distinto;, afirmou. Na semana passada, o ex-presidente de governo da Espanha Felipe González esteve em Caracas e foi proibido de visitar Leopoldo López.

Cientista político da Universidad Simón Bolívar (em Caracas), José Vicente Carrasquero Aumaitre admite que a greve de fome se relaciona ao tratamento ;especialmente inadequado; recebido pelos presos políticos. ;Mas ela também é um mecanismo de protesto: os ativistas exigem que o Conselho Nacional Eleitoral fixe as datas das eleições parlamentares, que devem ser realizadas no fim do ano;, comenta.

O especialista lamenta que os governos latino-americanos estejam mais preocupados com os negócios com Caracas do que com a vigilância do cumprimento dos direitos humanos. E denuncia a posição ambígua do Brasil em relação à crise venezuelana. ;O governo brasileiro sabe que a Venezuela compra do Brasil cada vez menos alimentos e tampouco os produz. Sabe que os princípios democráticos são ignorados em meu país. Ainda assim, prefere dar prioridade ao bem-estar de seus negócios com o regime de Maduro do que levantar a voz contra o que ocorre na Venezuela;, criticou.



Ativistas apelam a Dilma por ajuda

Em protesto diante da Embaixada do Brasil, em Caracas, Lilian Tintori (loira ao centro da foto) e Mizti de Ledezma ; mulheres, respectivamente, do líder opositor Leopoldo López e do prefeito Antonio Ledezma ; entregaram anteontem uma carta endereçada à presidente Dilma Rousseff. No documento, também assinado pela deputada María Corina Machado, elas exortam o governo brasileiro a se pronunciar a favor do cumprimento das petições sobre a data das eleições parlamentares, da liberação dos presos políticos e do fim da repressão na Venezuela. María Corina leu a carta e destacou a importância de contar com o apoio de Dilma para que a situação no país melhore. ;Sabemos que, como mulher, com esse espírito de amor e reconciliação que nos caracteriza, é sensível à nossa causa. Em seu país, não há presos; no nosso, sim; em seu país, não reprimem o povo por protestar; no nosso, sim. Em qualquer democracia, realizar eleições é um ato normal. No nosso país, o povo precisa fazer uma greve de fome para exigir isso;, afirma a carta. O grupo, formado por mais de 30 pessoas, carregava flores brancas, cartazes e a ba

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