Ser Dilma não é moleza, não!

Ser Dilma não é moleza, não!

Ter o nome da presidente da República pode ser bem divertido, mesmo para quem não gosta da Rousseff. Mas chega a ser perigoso, dependendo do grau de irritação de quem está por perto

postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Não tem sido fácil ser Dilma, aquela ou qualquer outra. Mas, pelo menos para as anônimas, é divertido, porque mesmo quem não gosta da mais conhecida das Dilmas curte brincar de ter contato com a presidente da República ou de ser uma espécie de alter-ego fugaz da PR.

;Lá vem a poderosa!”, gritam as amigas à aproximação de Dilma Noce, 69 anos, bancária aposentada, moradora do Noroeste. Mas a Noce (pronuncia-se Nóte) não votou na Rousseff (pronuncia-se Ruséfi) em nenhuma das duas eleições. Nem votou em candidato do Partido dos Trabalhadores. ;Não gosto do PT, nunca gostei.; E ressalta: ;Sou honesta desde que nasci;. E que é poderosa sim, mas do seu jeito.


Quando encontra os companheiros da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar (Fetraf), a sem-terra Dilma Farias Silva, 50 anos, é anunciada com festa: ;Companheiros, a Dilma chegou. Agora, todo mundo será assentado!”. Essa Dilma ocupa um naco de terra do assentamento Barrocão, em Brazlândia. Votou na outra nas duas eleições e, embora a presidente reeleita não tenha feito nada, ou quase nada, pela reformar agrária, Dilma Silva a entende e admira: ;Ela tenta fazer alguma coisa, mas, se não consegue, é porque realmente é difícil;.

A vida das Dilmas é um suceder de acontecimentos engraçados ou embaraçosos. Dilmas não têm sossego nos táxis. ;Pensei que eu vinha pegar a presidente;, é a brincadeirinha mais comum. ;Estamos precisando de aumento de tarifa, dona Dilma;, é outro usual. Para evitar a conversa fiada, Dilma Cunha Lemos, 61 anos, professora aposentada, mente o nome quando vai pedir um táxi. Joana, Maria, Tereza, qualquer um.


No primeiro mandato da presidente, a vida das homônimas foi bem mais fácil. De janeiro para cá, as ocorrências raivosas têm sido mais frequentes, mas o bom humor brasileiro parece prevalecer sobre o azedume. Dilma Imai, assessora parlamentar da Câmara Legislativa, já recebeu inusitado pedido de um amigo, promotor de eventos com trânsito no governo federal: ;Vou para uma reunião importante. Liga pra mim só para eu dizer ;oi, Dilma;;.

Essa mesma Dilma viveu um episódio nervoso. Ela coordenava um espetáculo em Taguatinga, quando um policial militar pediu ao DJ que abaixasse o volume do som. ;Fala com a Dilma, não é comigo;, respondeu o rapaz. ;Tá me zoando?;, retrucou, ríspido, o PM. Foram necessários algum tempo e muita explicação para evitar um B. O. por desacato a autoridade. E Dilma precisou mostrar a Carteira de Identidade para assegurar ao policial de que não se tratava de uma zoação. Há quem ache a Imai parecida com a Rousseff, por conta do tom de pele e do corte de cabelo: ;Mas você é mais bonita!”, dizem os interlocutores.

As Dilmas têm um trunfo que pode virar um truque para as não Dilmas. A publicitária Dilma Lima, 35 anos, já foi bem-sucedida várias vezes. ;Ligo para falar com alguém em outra cidade e digo: ;É a Dilma, de Brasília;. Pelo sim, pelo não, quase sempre sou atendida prontamente.; Mas já aconteceu de a pessoa do outro lado da linha devolver: ;Ah, tá, e eu sou a Xuxa;.

A professora aposentada Dilma Cunha Lemos, 61 anos, observou dois comportamentos distintos: entre as pessoas que a conhecem há muito tempo, nada mudou. ;Eles não fazem o link. A ligação só acontece numa situação em que tenho de me apresentar.; A Lemos nunca votou na Rousseff, mas já foi ameaçada de levar um tiro. Foi na fila de um restaurante. A moça do caixa a chamou pelo nome, ao que o cliente da frente se voltou e atacou: ;É porque não tenho um revólver, senão;;. A ofendida não alimentou a ira do descontrolado. ;Tenho procurado levar na brincadeira, mas, às vezes, incomoda.;

Eleitoras ou não da presidente, as Dilmas gostam do próprio nome. A Dilma professora descobriu que o nome é uma derivação do espanhol del mar, do mar. Dilma Lima tem o nome da avó. Dilma Imai é irmã de Dulce e de Dilce. Dilma Noce tem nome de uma modelo francesa, que a mãe recolheu de uma revista de modas.

Dilma sem-terra foi assim batizada em homenagem à mãe, Diva. O pai, Francisco, deu aos primeiros filhos nomes começados com Fran (Francimeire, Francinaide, Françoaldo, Francidenia). Pretendia nomear a segunda mais nova das filhas de Francisnalva. No cartório, mudou de ideia. E deu-lhe o nome de Dilma, com d de Diva. Como a sem-terra, a presidente também tem o nome da mãe.

Caso não aconteça nenhum impedimento no percurso, as Dilmas ainda terão três anos e meio de histórias para depois contar. E a presidente bem que poderia facilitar a vida das Dilmas, das não Dilmas e dos não Dilmos.


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