Passaporte para o estudo

Passaporte para o estudo

Brasilienses dão orgulho às famílias por conseguirem fazer uma faculdade. O estímulo para seguir da escola à faculdade foi encontrado nas pistas da capital e no incentivo dos treinadores

Maíra Nunes
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 22/5/15)
(foto: Carlos Moura/CB/D.A Press - 22/5/15)


Luiz Henrique Schmit Quadros, 23 anos, é o único com ensino superior entre os oito filhos de Dalva Schmit e Luiz Camelo Filho, todos criados no Recanto das Emas, a quase 30km do Plano Piloto. O maior estímulo de Luiz foi encontrado nos fundos da chácara onde morava, em um projeto social de atletismo. Com os pés descalços sob o chão de terra, o garoto viu aos 12 anos que o gosto dele pelo esporte extrapolava o sonho de se tornar um corredor.

;O treinador do projeto dizia que um dia voltaria para a terra dele no Rio Grande do Norte e tinha medo de ver todo aquele trabalho com as crianças se perder;, lembra Luiz. ;Isso foi um incentivo a mais para eu estudar educação física. Caso precise, já tem alguém para suprir ele lá;, emendou, orgulhoso. Hoje, na pele do assistente técnico de atletismo do projeto de alto rendimento do Instituto Joaquim Cruz, Luiz sabe da importância do papel de estar do outro lado, agora, como professor.

Luiz chegou a competir em outras cidades do Brasil nos 200 metros rasos, mas nunca se permitiu desvirtuar dos estudos. No Clube dos Descalços, projeto social no Recanto das Emas onde começou, o bom desempenho na escola é pré-requisito para continuar treinando ou para receber a bolsa nos programas de alto rendimento. ;Foi por meio dos treinadores que me interessei em estudar e fazer uma faculdade. Na minha família, a gente não tinha essa preocupação toda com a educação;, conta.

De exceção à regra dentro de casa, Luiz se tornou exemplo. O irmão mais novo, que também pratica esporte disse ser o próximo da família a conseguir um diploma de nível superior. Os outros colegas de pista também não ficam atrás. ;Podemos não nos tornar atletas campeões e de renome mundial, mas atingimos um objetivo social e tanto. Todos aqui tem ou estão estudando para ter ensino superior;, orgulha-se Luiz, agora do outro lado, como professor e incentivador de futuros atletas e estudantes.

No mesmo caminho segue Kleanderson Ribeiro Melo. Aos 21 anos, ele paga a faculdade de direito com a bolsa que ganha no projeto de alto rendimento de atletismo do Instituto Joaquim Cruz. ;No início, são os treinadores que cobram o estudo da gente para continuar no projeto, depois é o esporte que nos possibilita fazer uma faculdade, graças a bolsa que ganhamos com ele;, observa. A faculdade também proporciona uma bolsa atleta parcial. Na rotina, nada de moleza: dedicação aos treinos durante o dia e faculdade à noite.

Sem esquecer das raízes
Natural de Taguatinga, Joaquim Cruz mantém em Brasília um instituto de atletismo batizado com o nome dele. Mesmo aposentado e morando nos Estados Unidos, o campeão olímpico dos 800 metros rasos nos Jogos de Los Angeles-1984 faz visitas com frequência às crianças e adolescentes que participam dos projetos.

Sonho de corredor

Desde menino, Kleanderson Ribeiro Melo, 21 anos, queria ser jogador de futebol. Um dia jogando bola na escola, um professor de atletismo o chamou para participar de uma corrida em uma competição escolar e ele aceitou. Depois, com o convite do treinador de futsal para disputar um torneio na mesma data, viria o arrependimento. ;Meu pai me falou que, se eu já tinha assumido o compromisso com o atletismo, já era;, lembra.

Kleanderson percebeu que a escolha não havia sido tão ruim quanto imaginava quando ganhou tudo o que disputou nas provas de atletismo. Os resultados o qualificavam para competir o torneio nacional escolar. ;Eu nunca tinha corrido na vida e já viajaria por causa do atletismo;, conta, lembrando o deslumbramento que sentiu pela oportunidade de viajar, pela primeira, para fora de Brasília.

Tamanha euforia, ele mesmo tenta explicar: ;Menino não sonha em ser corredor, sonha em ser jogador de futebol. Mas eu nunca tinha viajado para jogar futsal e, na primeira vez que eu corri, ganhei uma viagem para competir em Minas Gerais e fiquei em um super-hotel. Aí pronto, fiquei impressionado e nunca mais parei de correr;, comenta, aos risos.

É que hoje, Kleanderson conta com uma lista mais extensa de cenários nacionais por onde passou, todos por meio de competições de atletismo. A de preferência dele é a que guarda as melhores lembranças nas pistas, claro. ;É Curitiba, onde tive meu melhor resultado, mas Aracaju também ficou marcada. São duas cidades com climas e visuais diferentes, mas foram lugares que gostei muito;, comenta.

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