360 Graus

360 Graus

por Jane Godoy janegodoy.df@dabr.com.br
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Guilherme Magaldi/Divulgação)
(foto: Guilherme Magaldi/Divulgação)






A Brasília dos pontos mortos


Já escrevemos incansavelmente sobre o que resolvemos chamar de ponto morto em Brasília. Para descobri-los pela cidade, que deveria ser também maravilhosa, infelizmente, não demanda grande esforço.

Basta andar por aí, com o senso de observação bem aguçado, e começaremos a encontrá-los, quase que em cada quadra, em cada conjunto, em cada praça. Isso para desgosto daqueles que amam Brasília e gostariam de vê-la figurar entre as mais bem cuidadas capitais do mundo.

Ao observar tudo isso, todo esse sucateamento turístico, cultural, histórico e ambiental, não conseguimos entender o que acontece no Brasil e, principalmente, em Brasília.

Ainda mais quando vemos, pelo mundo, cidades que sofrem com terremotos, bombardeios, atos de terrorismo que destroem tudo a sua volta, vítimas de guerras destruidoras.

Em vez de choro e ranger de dentes, de desânimo e vontade de deixar tudo como está, encontramos um povo que, não sei como nem de onde, reúne forças e energia coletiva para, no dia seguinte, começar o trabalho de rescaldo e reconstrução. De quê? De cacos! De destroços! De montanhas de entulho! De quase nada!

Mas arregaçam as mangas e, num trabalho de formiguinha, começam a reunir tudo, a numerar peça por peça, a revelar e a ampliar antigas fotografias para, contemplando-as meticulosamente, fazer surgir daquelas mãos patriotas e engajadas, aquilo que, através dos séculos, foi referência e patrimônio histórico do lugar, do país e até do mundo.

Volto meus pensamentos para o Brasil e para o que mais nos diz respeito: Brasília.

Temos, terremotos? Fomos vítimas de bombardeios? De ataques terroristas? De alguma guerra que transformasse nosso patrimônio histórico e cultural num monte de entulho e destruição? Algum incêndio avassalador que devorasse com suas labaredas tudo o que temos de tão marcante na cidade? A resposta é NÃO!

Para a tristeza dos brasileiros e brasilienses conscientes e que vibram com o lado cultural e histórico do país e de nossa cidade, a conclusão é mais do que óbvia.

Nossos terremotos, bombardeios, ataques terroristas, guerras incêndios avassaladores estão, isso sim, na falta de gestão pública, de vontade de desmediocrisar a cultura, de fazer o que é preciso ser feito para que o inalienável patrimônio histórico e cultural das cidades seja preservado, cuidado, respeitado. Isso porque a cultura, para certas mentalidades, não gera votos, não tem valor político, não tem importância.

É o caso do nosso Teatro Nacional Claudio Santoro, fechado desde abril de 2014, se deteriorando a cada dia.

É o caso ; triste ; do Museu de Arte de Brasília (MAB), sobre o qual, há anos, já nos manifestamos aqui nesta página. Em vão!

Agora, transmitiremos o apelo de um leitor, prova de que as pessoas que não têm ;certas mentalidades; estão mesmo atentas e clamam por enérgicas e urgentes providências:

;Sabendo de seu interesse na preservação de monumentos e prédios da nossa cidade, lembrei-me da sua coluna quando, hoje, no início da tarde, passei em frente ao Museu Arte de Brasília (MAB) , obra com a assinatura de Oscar Niemeyer . O prédio está em ruínas, como você pode ver nas fotos anexas . Fiquei chocado e resolvi chegar mais perto. Para minha surpresa, vi uma placa do GDF em que consta que o prédio estaria sendo reformado com conclusão das obras para, pasme, maio de 2015 ; há um mês, portanto! Não sou engenheiro, mas as obras sequer começaram, pois só vi demolição da estrutura antiga e escavações, o que não deve representar mais do que 10% do objeto da pseudo reforma. Com todo respeito, isso deveria ser um caso de polícia. É uma irresponsabilidade do GDF, da secretaria de Cultura e da respectiva direção de Museus do DF . Um museu projetado por Niemeyer nesse estado é uma vergonha para nós brasilienses. Do lado de fora tem uma linda escultura do Franz Waismann que já começou a ser pichada! Peço-lhe também, por outro lado, que você, se tiver tempo, dê uma passada no Espaço Cultural Renato Russo, na W3 Sul. Está caindo aos pedaços igualmente e ninguém faz nada. Estamos na capital da República e é esse o tratamento que nossas autoridades da área cultural dão aos poucos museus da cidade. É lamentável!”

Guilherme Magaldi.

Creio não ser necessário acrescentar mais nada. Esta é uma observação de um cidadão brasiliense, que quer para a capital do Brasil um mínimo de interesse e empenho por parte daqueles que tanto pelejam para ocupar cargos públicos. Que correm de um lado para o outro insandescidos; sobem em palanques, caminhões ou qualquer outra coisa que os coloque mais à vista; participam de carreatas embandeiradas e cheias de gritarias e refrões de comando; punhos fechados como que esmurrando o mundo e o adversário; esbravejam quilômetros de discursos inflamados; empolgam os correligionários, e "compram" com sua verborréia os "simpatizantes" de ocasião, tentando convencer a todos de que serão os salvadores da pátria.

Vencem! E depois? E depois e depois?

Ao apagar das luzes das posses festivas e cheias de salamaleques, vem o silêncio, a inoperância, a inércia, a letargia daqueles que já têm o que queriam: o poder, o palácio, as mordomias, os motoristas e assessores à disposição e a preocupação de falar mal, denegrir e culpar a gestão passada. E por aí vai.

E Brasília fica. E nós ficamos. Tristes. Decepcionados. Frustrados. Esperando o próximo....

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