Dicas de português

Dicas de português

por Dad Squarisi dadsquarisi.df@dabr.com.br
postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Evaristo Sa/AFP - 29/4/15)
(foto: Evaristo Sa/AFP - 29/4/15)

Recado
;Clássico é o livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer.;
Ítalo Calvino


É proibido proibir
Ufa! A novela das biografias chegou ao fim. Já foi tarde. O Supremo Tribunal Federal foi unânime: 9 X 0. Deixou recado claro pra Roberto Carlos & cia. louca pela volta da censura. É proibido proibir. Escritor que quiser contar a vida de celebridade não precisa pedir autorização do personagem ou familiares. Se disser mentiras e calúnias, prestará contas à Justiça.

O julgamento trouxe às manchetes palavrinha pra lá de odiada. É o monossílabo não. Ninguém o ama, ninguém o quer. Mas ele aparece em montões de vocábulos. É o caso de não intervenção, não governamental, não ingerência. E, claro, não autorização. A pergunta: a duplinha se grafa com hífen? Ou fica um lá e outro cá, livres e soltos?

Antes da reforma ortográfica, imperava a confusão. Ora o tracinho aparecia, ora não. Agora reina a padronização. Xô, elo! Viva a liberdade! Assim: não autorização, não agressão, não alinhamento, não conformismo, não fumante, não alinhado, não intervencionista, não verbal, não viciado, não combatente, não ferroso. Etc. e tal.



Cristo, Judas e Levy
A Bíblia entrou na ordem do dia. No centro, Joaquim Levy. O ministro foi comparado a Judas e a Jesus Cristo. Num e noutro caso, não é pouco. Daí a repercussão em jornais, rádios, tevês e internet. Luiz Fernando Perez Pereira leu os comentários na imprensa. Surpreendeu-se com os maus-tratos dispensados à língua.

;Os redatores não têm a menor ideia se a grafia é com minúscula ou maiúscula;, escreveu ele. No jornal, a chamada de capa diz que Temer compara Levy a Cristo. A manchete da pág. 3 é ;Levy, de Judas a Cristo;. Num dos destaques, aparece: ;Não se pode fazer isso, criar um Judas;. No texto: ;Levy não pode ser visto como um Judas;. Ufa!


De próprio a comum
A língua joga no time dos mutantes. Instrumento de comunicação das pessoas, muda conforme mudam os tempos e os falantes. Maiúsculas e minúsculas servem de exemplo. Os nomes próprios se escrevem com inicial grandona. É o caso de João, Maria, Pará, Colônia, Brasil. Às vezes, porém, eles entram na composição de substantivos comuns. Tornam-se vira-latas: joão-de-barro, castanha-do-pará, água-de-colônia, pau-brasil, banho-maria, maria vai com as outras.

Cristo e Judas têm pedigree. São personagens pra lá de importantes do Novo testamento. Também há homens que se chamam Cristo e Judas. Em ambos os casos, escrevem-se com inicial maiúscula. Mas a dupla pode ser referida metaforicamente. Judas simboliza o traidor (o judas da história, malhação do judas). Cristo, vítima de perseguição ou zombaria. Também pessoa que paga pelos outros: ser cristo, bancar o cristo.


O mutante
Ao dizer que Temer compara Levy a Cristo, o jornal acertou. Nos demais casos, a pequenina pede passagem: Levy, de judas a cristo. Não se pode criar um judas. A presidente disse que Levy não pode ser visto como um judas.

Deu pra entender? Os dois são referidos metaforicamente ; o traidor e o que paga pelos outros. Resumo da opereta: Na língua, quem foi rei perde a majestade sim, senhor.


Leitor pergunta
Li na Veja: ;Rodrigues, flagrado assistindo a pornografia no celular;. Assistir, no sentido de ver, é transitivo indireto. Pede a preposição a. Mas tenho a impressão de que, na frase, a ausência de crase tem explicação. Consultei a gramática. Sem obter resposta satisfatória, peço ajuda à coluna.

Olimpia do Canto, lugar incerto

Você tem razão, Olimpia. Assistir pede a preposição a. Ela está presente na frase. O que falta é o artigo. O pequenino não tem vez porque não se trata de pornografia determinada, mas uma pornografia qualquer, indefinida. Com um substantivo masculino, fica clara a ausência do pequenino: Rodrigues, flagrado assistindo a filme no celular. Rodrigues, flagrado assistindo a pornografia no celular.

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