Depois da passagem

Depois da passagem

Demoramos a assimilar a perda de um ente querido. Nessas horas, a fé costuma desempenhar um papel importante

postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
;Quando a tempestade demora a passar / A vida até parece fora do lugar / Não perca a fé...;, conclama um samba, famoso na voz de Diogo Nogueira. A canção é um alento a quem atravessa o difícil momento do luto. Apesar de ser a única certeza que temos, é sempre duro absorver a morte dos entes queridos. Nessas horas, muitos buscam forças na religião, seja lá qual for. ;As religiões fazem mais que dar uma palavra de consolação, elas interpretam, ou seja, dão significado a algo inexplicável;, pondera o professor Eurico Antônio Gonzalez, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília.


Não existe, é claro, garantia de que a dor se dissipará. A sensação de absurdo resiste a explicações racionais. ;A ciência só aponta fatos causais, coisas vistas. É uma limitação dela. Já a religião liga os dois lados: o que a gente vê com o que não vê;, complementa o sociólogo. A Revista ouviu pessoas de vários credos e se deparou com diferentes modos de lidar com o fenômeno da morte.


Tempo de reflexão

O budismo é conhecido por difundir a positividade. Nessa doutrina, tudo tem uma explicação e uma lição a ser aprendida. Portanto, a experiência da morte é um momento de rever conceitos esquecidos em vida. Há 17 anos dirigente do Templo Budista Shin Terra Pura, na Asa Sul, o monge Sato (foto) explica que todas as pessoas fazem algo bom, que justifica a sua existência. Por isso, todos podem ;despertar;, ou seja, tornar-se um buda. ;Essa é uma diferença das religiões monoteístas: nelas, você não pode se tornar algo sagrado;, compara o monge. Aos olhos dos budistas, a morte também tem outro significado. Nessa etapa, o sujeito rompe mais um elo do ciclo de reencarnações e salta de nível, a depender do karma acumulado, o que é motivo de alegria. Esse sentido ameniza a tristeza de amigos e parentes.

A gestora pública Sarah Gomes, 34 anos, e sua família são praticantes da linha Nichiren Daishonin. Ela perdeu o pai, vítima de um câncer, em 2009. A cerimônia foi de acordo com os preceitos da crença. No oratório de Gohonzon, objeto de devoção dessa vertente, estava presente um sacerdote que deu início às orações. Em seguida, houve o momento do shoko: o oferecimento de incenso em memória da pessoa falecida. O ritual foi marcado pela serenidade e, segundo Sarah, trouxe alento e consolo aos presentes. ;Havia pessoas de outras religiões, mas é engraçado como a energia do ambiente foi transmitida até para quem não segue nossos preceitos;, constata.

O monge vincula a tranquilidade nos funerais à disposição budista em aceitar a morte como parte da vida. O sofrimento é inerente à existência, no entanto, é convertido em reflexão. ;Existem os ofícios do sétimo dia e da semana. Depois, há os do primeiro, do terceiro e do sétimo ano. Os primeiros sete dias são os mais importantes para que a família e os amigos se despreguem da saudade.; A proposta não é rejeitar a memória do falecido(a), mas se acostumar com a sua ausência. A cerimônia, depois de sete dias, acontece para lembrar verdades fundamentais. ;A primeira coisa a ser relembrada é a impermanência. Tudo passará ; as coisas, as pessoas, os fenômenos ;, e as ações devem ser feitas enquanto ainda estamos aqui. A segunda rememoração tem a ver com a interdependência: na dor da separação, você percebe que não teria se desenvolvido sem a ajuda do outro. A morte nos dá a visão de que existe muita coisa a ser feita;, aponta. A partir da celebração de primeiro ano de óbito, são distribuídos comes e bebes pela família. É um costume de reconhecimento pela presença das pessoas que se reuniram para meditar sobre as lições propiciadas naquela ocasião.

Sarah conta que seu pai é lembrado pela família e amigos diariamente, ao recitarem, pela manhã e a noite, o Gongyo e Daimoku. ;Essas preces são oferecidas à felicidade dos que já se foram, pois entendemos a morte como uma continuidade da vida e não um fim;, explica. Sato ressalta que o surgimento de consciência simboliza a projeção de luz na vida das pessoas por meio dos novos e antigos budas. A isso, devemos agradecer.

Tudo em vida se rende à morte


Acostumado a organizar os cultos de falecimento no Centro Espírita Ilê Egungú Ejibarabagi, Cristiano Gomes da Silva (foto), 37 anos, teve que realizar também a celebração fúnebre do próprio pai. Vindo de uma família que segue os preceitos do candomblé, o professor de lutas marciais não conteve a emoção. Era alguém próximo demais que estava sendo entregue a Itunlá (lugar para onde o espírito vai renascer na vida eterna).

Apesar de haver uma festividade, é um momento sério. O ritual é interpretado como o desligamento do aiê (terra) para o orum (céu), e todas as pessoas vivas devem contribuir na passagem. O velório e o enterro precedem os três dias de ritual, onde é oferecido comida ao orixá guardião daquele ser e entoam-se cantigas em orumbá (dialeto africano), com a intenção de esclarecer e evoluir o espírito que se foi. O costume, denominado de axexê, ocorre uma única vez se o falecido for filho(a) de santo. Se for um pai ou mãe de santo, será realizado durante sete dias seguidos e, depois, repetido no primeiro, no terceiro, no sétimo, no 14; e no 21; ano para que todas as obrigações do finado com a casa espírita sejam feitas.

Durante o período de luto, o templo suspende as atividades. A duração pode ser de três meses, para um filho (a) de santo, ou de um ano, para um pai ou mãe de santo. A pausa é uma orientação dos orixás, e diz respeito à crença de que o espírito do falecido continua na instituição por um tempo, enquanto não completa seu caminho evolutivo.

Inserido nesse contexto, Cristiano afirma que sua dor só não foi maior porque, até o momento de o caixão ser baixado, ele sentia a presença protetora do seu orixá. ;Quando o enterro foi completado, eu tive um momento só meu em que desabei no choro;, rememora. ;Na hora do carrego, quando entregamos a pessoa para o outro lado da vida, senti uma fraqueza, mas agora sou muito feliz por saber que meu pai ainda está presente do outro lado, ele não se acabou;. Hoje em dia, Cristiano e sua família são mais unidos. Continuam servindo os seus orixás para que, na passagem de um mundo para o outro, sejam recebidos por eles. ;É uma preparação para o encontro com a ancestralidade;, conclui.

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