Divisor de consciência

Divisor de consciência

postado em 14/06/2015 00:00
 (foto: Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press
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(foto: Fotos: Zuleika de Souza/CB/D.A Press )

A vida de Rosemary Guido (foto), 59 anos, estava nos trilhos no ano de 2006. Seguia até um pouco maçante. Sua rotina era cuidar da família, ajudar voluntariamente no Centro Espírita e trabalhar no Banco do Brasil. Em um sábado de manhã, a tranquilidade foi interrompida por um telefonema. Do outro lado da linha era a sua mãe, avisando que o irmão tinha sido assassinado.

No Rio de Janeiro, cidade natal de Rose e sua família, Luiz Augusto Pereira, 45 anos, administrava uma lanchonete com a esposa, Rosane Montalvão, 41 anos. Ao encerrar o expediente, numa sexta-feira, Luiz, a mulher e uma funcionária foram surpreendidos por três assaltantes. As vítimas foram rendidas e baleadas. O irmão e a cunhada morreram na hora. Ao ouvir a notícia, Rose achou que estava sonhando.

Foi às pressas para a capital carioca. Sozinha. Ela sentia como se estivesse sendo guiada para fazer suas obrigações de primogênita. A primeira parada foi a mais difícil: devia liberar o corpo no Instituto Médico Legal (IML). Não conhecia ninguém, por isso ficou admirada quando uma senhora se aproximou para perguntar se precisava de algo. Rose contou a história. A anônima se apresentou como agente funerária e falou que iria ajudar. ;Ela resolveu tudo. Era como se estivessem me levando pela mão;, lembra.

Apesar da dolorosa circunstância, ela e os pais, já idosos, estavam tranquilos no dia do sepultamento. Havia choro, mas não sentimento de revolta. ;No dia do velório, as pessoas chegavam perto da gente e falavam coisas do tipo ;a justiça vai ser feita;, tentando oferecer consolo, mas não era isso que eu sentia dentro de mim;, conta. Rose chegou a rogar que a mãe fosse compreensiva com os responsáveis pela tragédia, porque, afinal, eles poderiam não ter uma base de amor e religião. ;Nesse momento, a doutrina espírita foi fundamental para alentar o meu sofrimento;, reconhece.

Marta Antunes, vice-presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), relata que, no meio espírita, é recomendado o desapego ao longo da vida. ;É um processo de preparação do kardecista para o momento da separação carnal. A maior preocupação percebida nas comunicações mediúnicas é a adaptação do espírito à nova realidade;, exemplifica. Essa percepção é preparada com muita leitura e palestras. Não há formalismos no momento da morte, e o desespero não é bem-vindo. ;A oração, de qualquer origem, é poderosa. Geralmente, os familiares procuram intuitivamente a casa espírita ou algum lugar religioso para rezar. Isso ajudará o morto em seu caminho espiritual;, esclarece.

Ao ser procurada por um jornal sensacionalista, Rose não quis dar entrevistas. ;Não ia adiantar tornar o caso público. O luto tem que ser vivido por você até o fim, compartilhar a dor com o outro não irá diminuir a que estou sentindo;. Seus pais foram procurados pelo delegado para mostrar os criminosos capturados. O convite foi recusado. A opção de se distanciar de sentimentos ruins foi uma maneira de não arranjar outros problemas e encarar a adversidade de forma menos egoísta. Para o espiritismo, a ausência do corpo físico é comparado à falta que uma pessoa faz quando se muda para outro país. A comunicação, porém, é mantida por meios diferenciados.

;A morte do meu irmão foi um divisor de águas na minha vida porque descobri que dor nenhuma mata; que nunca estamos sozinhos e temos que aproveitar a companhia de quem amamos porque não sabemos quando eles partirão. Além disso, pude vivenciar todo o aprendizado da doutrina espírita. Adquiri mais confiança;, conclui.


A verdadeira Páscoa

Nascidos em berço cristão, os irmãos Luiz Fernando, 34 anos, e Luiz Gustavo de Souza Moreira, 30, passaram, em 2001, por uma situação desestruturante: perderam a mãe. A matriarca era, para os dois, um modelo a ser seguido. ;Como ela foi percussora de muita coisa no movimento católico de Brasília, sempre a acompanhávamos nos seus trabalhos;, explica Luiz Fernando, que é fonoaudiólogo.
Laísa Aparecida de Souza Moreira tinha 44 anos quando faleceu. A operação bariátrica tinha sido um sucesso. Porém, uma semana depois, surgiu uma inflamação, que rapidamente evoluiu para uma infecção generalizada. Não resistiu.

A notícia atingiu os filhos como um golpe. ;Fui pego de surpresa. Foi como um blecaute;, compara o caçula, Luiz Gustavo, professor de educação física. Entretanto, no dia do velório, Luiz Fernando conta que sentiu uma força enorme dentro de si. ;Um consolo de Deus, pois estava consciente do acontecimento, mas estava em paz por saber que ela alcançou seu objetivo de vida. Por isso, a tristeza não me abateu;. Com esse discernimento, o primogênito conseguiu a lucidez necessária para receber os amigos que chegavam em bando. Consolou o irmão, que não participou o tempo todo da homenagem.

Segundo Luiz Fernando, o ambiente tornou-se alegre, com música, pessoas orando e cantando. O clima de celebração acompanhou todo o sepultamento, até o cemitério. A aparente tranquilidade com que o momento foi conduzido causou estranhamento por parte de alguns parentes. ;Houve comentários do tipo: ;Nossa, nem parece que a mãe deles está morta;. Não rebati e não me abalou. Sabia que aquela atitude era reflexo do que estudei na minha crença;, pondera Luiz Fernando.

O padre Paulo de Matos, dirigente do grupo católico Caminho Neocatecumenal, define a morte como a passagem para o pai celeste, ou seja, a verdadeira Páscoa. ;Esse pensamento muda radicalmente a atitude em um velório, pois, apesar da dor, cremos que a pessoa ressuscitará;, interpreta. Ele reconhece a diversidade de comportamentos perante a perda. ;Cada paróquia se manifesta segundo seu carisma. Alguns preferirão momentos de silêncio a cantos e orações.;

Os irmãos Moreira continuam firmes ; a saudade da mãe é constante, mas a fé venceu a escuridão.


Dor, bênção e milagre juntos

;O crente tem a consciência de que é um pecador. Demonstra a sua sabedoria colocando em prática os ensinamentos de Deus. Dessa forma, cria uma relação direta e não abstrata com Jesus. Podemos sentir uma energia, uma força, mas é importante que nos coloquemos à disposição desse Deus, para entendermos sua história de amor;, prega o pastor Rodrigo Luiz de Lourenço, da Igreja Evangélica Bola de Neve.

Foi com esse ensinamento em mente que Viviane Valadão, 35 anos, atravessou o momento mais tempestuoso de sua vida. Mãe de Nicole, hoje com 7 anos, a servidora pública planejou com o marido, o professor Robson de Sena, 41, ter o segundo filho. Não tardou a engravidar. Desta vez, de gêmeos. Por

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