Morte e suspeita de intolerância

Morte e suspeita de intolerância

Polícia Civil carioca investiga se o assassinato do médium Gilberto Arruda tem motivações religiosas. O homicídio ocorre cinco dias depois de uma criança ser agredida com uma pedrada na cabeça ao sair de um terreiro de candomblé

postado em 20/06/2015 00:00
 (foto: L.Adolfo/Folhapress)
(foto: L.Adolfo/Folhapress)


O médium Gilberto Arruda, 73 anos, foi encontrado morto na manhã de ontem, dentro do Centro Espírita Lar de Frei Luiz, onde morava, no Rio de Janeiro. Segundo a polícia, ele foi encontrado com as mãos amarradas para trás, um pano sobre a cabeça e tinha sinais de espancamento. Até a noite de ontem, nenhum suspeito havia sido preso e nenhuma motivação descartada. O homicídio ocorreu cinco dias depois de uma criança de 11 anos ser agredida com uma pedrada na cabeça ao sair de um terreiro de candomblé.

Arruda morava no centro com a mulher. No local, há uma creche, uma escola e um centro de serviço social. Mais de mil pessoas trabalham como voluntárias no lugar. O corpo foi encontrado logo cedo pela manhã, por agentes do 18; Batalhão de Polícia Militar. O médium fazia cirurgias espirituais em pacientes em estado grave. O ex-tenista Gustavo Kuerten, o Guga, é uma das pessoas que já foram atendidas por ele.

Em nota, o presidente do Lar, Frei Luiz, Wilson Vasconcelos Pinto, lembrou que Arruda era médium do lar desde os 6 anos e diz que a entidade ;acordou de luto;. ;Sabemos que nestes tempos modernos tudo pode ser imaginado e especulado, sem qualquer elemento concreto. Os fatos sobre a desencarnação do médium Gilberto estão sendo apurados pelas autoridades competentes e somente após a conclusão das investigações poderemos saber de fato o que ocorreu;, escreveu.

Ódio
A possível relação do crime com intolerância religiosa reacende o debate sobre o tema. No último domingo, Kailane Campos, 11 anos, levou uma pedrada da cabeça, quando saía de um terreiro de candomblé, com a avó Kátia Marinho, 53 anos. Os dois homens que a atacaram disseram que ela deveria ;queimar no inferno; e a chamaram de ;macumbeira;. A mãe da criança é evangélica e organiza, com a família, um protesto no próximo domingo pela manhã.

Ontem, a menina visitou o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta. No encontro, ele prestou solidariedade e se posicionou contra qualquer forma de perseguição religiosa.

O professor de antropologia na Universidade de Brasília (UnB) José Jorge de Carvalho, no entanto, avalia que o mais correto é classificar os casos como de intolerância cristã no lugar de religiosa. ;Os episódios de intolerância que encontramos aqui são de igrejas cristãs contra não cristãs. Mas a intolerância religiosa é muito concentrada nos cristãos evangélicos de origem petencostal, que não aceitam as outras. Uma parte da igreja cristã não se envolve porque participa de diálogos ecumênicos. Batistas, luteranos, metodistas e espíritas são pacíficas;, disse.

Para o professor, o Congresso Nacional tem colaborado para incitar esses casos de ódio, devido à ;estridência; dos parlamentares que evocam Deus a todo momento. ;São estridentemente evangélicos. O idioma da diabolização fica mais frequente. Só não sei se o Congresso conservador é uma consequência da intolerância ou se ele provocou isso;, diz.

Vândalos atacam túmulo de Chico Xavier
; O túmulo de Chico Xavier, que fica no Cemitério São João Batista, em Uberaba, foi alvo de vandalismo ontem. O vidro blindado que o protege está trincado e apresenta um pequeno buraco. O diretor do Departamento de Cemitérios de Uberaba, Jamir Messias de Freitas, acredita que vândalos jogaram uma pedra contra o local. Esse tipo de ação, entretanto, é frequente no cemitério. ;Tem mais de 30 mil túmulos e temos de nos preocupar com todos. Infelizmente, vandalismo se torna uma coisa corriqueira;, disse. Quem percebeu o dano foi o filho adotivo de Chico, Eurípedes Higino, que pretende instalar grades no local para reforçar a proteção. Para Higino, o ato pode ter sido motivado por intolerância religiosa. Semanalmente, cerca de 2 mil pessoas, em média, visitam o túmulo.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação